Cogito, ergo... sum?



No fundo eu sempre quis esgoelar meu ex-professor de Yoga. E nem era porque ele sugeria que eu era um ser sem coração só porque comia carne. Não dizia em palavras, insinuava, daquele jeito: “ah, mas tu AINDA come carne?”, como quem fosse completar com “ainda é um ser inferior que precisa desta pseudo-nutrição tão primitiva e cruel?”. Eu pagava meus “pecados carnais” me lembrando do frango depenado e pendurado no supermercado toda vez que ficava de cabeça pra baixo. De fato, o frango deve se sentir muito mal nesta posição. Troglodita eu.

Agora quando ele vinha com aquela do pensamento, eu queria mais era depenar e pendurar ele naquela mandala zen yin e yang que ficava no alto da parede esquerda. Quando ele dizia que eu devia “observar meus próprios pensamentos, deixar eles passarem por mim sem entrar neles”, era quando o bicho pegava. Sem noção o quanto isso é difícil, sem falar que o próprio fato de seguir a ordem já é pensar nela. “Não devo pensar... não devo pensar... Hum, estou conseguindo, acho... Putz, acabei de pensar que consegui não pensar”.

É claro que colocar os neurônios, axônios e dendritos pra fazer sinapses é bom, perigando tornar-se real a frase chocante que escutei certa feita de um ex-professor, de que o cérebro humano será nosso próximo apêndice. Chocante e nada fictivo, se levarmos em conta que hoje em dia tudo vem pronto para o consumo (e já pensado pela gente). Então não me refiro aqui ao não-pensar presente nas massas, que não deixam de pensar por escolha zen.

Me refiro ao pensamento, em sua forma defensiva de racionalizar tudo. Essa bem característica da neurose, das nossas defesas narcísicas e egóicas. Nem tanto a existência dos nossos medos, mas tudo o que deixamos de fazer por conta deles. Penso, logo, mudo de idéia. Porque, com o perdão da ironia, pensando bem, você vai mudar de idéia. Penso, logo, não faço. Porque toda escolha tem riscos, se retirar 100% dos riscos de algo, só sobra permanecer na situação atual, ou seja, nada fazer. Penso, logo resisto. Pensando eu me protejo da emoção, e racionalizar um sentimento é uma boa forma de não ter que senti-lo.

Eu de zen não tenho nada, sou mesmo é um poço de angústia. O que tem lá seu lado bom, quando bem canalizado. Mas a questão principal é que viver de forma intensa é incompatível a estar racionalizando as coisas em tempo integral. Se juntar tudo, penso, logo não durmo. Tudo aquilo que vale a pena se viver passa longe da lógica. Aquilo que você vai se lembrar um dia, o que foi mesmo importante, o que ficou registrado, foi o que você se permitiu viver, e não o que ficou matutando sozinho no mundinho seguro de si. Não posso falar por Descartes, mas eu existo por que sinto.




Sono R.E.M



O despertar antecipado, seguido da agitação frente a saída brusca de um pesadelo, me é familiar. Mas a ironia presente nos meus sonhos, que de tão atordoados, ao invés de descansar me deixam mais cansada, perdeu lugar para outra graça. A novidade ocorre na fração de segundos em que não sei onde estou, subitamente interrompida pelo teu braço enlaçado na minha cintura, que, acrescido à tua cálida expiração na minha nuca, fazem-me pensar que nunca soube tão bem.

Me viro de frente para ti com a mesma delicadeza que faz o vento, quando sereno, vir em brisa. E é engraçado o quanto eu, que nem sabia de onde vinha a calma, pudesse entender o mais fidedigno conceito de tranqüilidade apenas te olhando dormir. Observo-te atentamente, em cada detalhe. Tua respiração, quando teu peito infla tal como se pudesse absorver a atmosfera em filtro às poluições mundanas, fazendo teu corpo  fanar em um suspiro sereno. Teu ombro encolhido, numa fragilidade que um homem só possui quando dorme, no momento em que renuncia às inflexibilidades da vigília constante.

Teu corpo embebido pelos lençóis, inteiramente entregue, parecendo um convite ao atrevido facho de luz que emana da rua e aproveita a única fresta disponível da janela. Ele se destaca da penumbra, pousando como carícia sobre a tua pele branca, a qual, quando dou por mim, já está sob os meus lábios. Beijo tua pele vagarosamente, interrompida pela tua menção em acordar, quando apenas volta teu rosto a mim sem abandonar o sono.

Contorno teu lábio inferior com os dedos, e repouso com cuidado a cabeça no teu peito, apenas para escutar a batida que faz teu coração, tão harmônico com o meu próprio, que já não consigo distinguir o que é meu ou teu nessa melodia. Nem preciso. Nem quero. Sinto teus braços sonâmbulos ao redor do meu corpo, que instintivamente me envolvem. Meu corpo parece menor e mais frágil envolvido no teu, paradoxais à sensação que tenho de expansão cada vez mais crescentes dentro de mim. Me sinto mulher, e no entanto muito mais que isso, me sinto humana.

Tão mais perto daquilo que falta ao mundo lá fora. Aqui o mundo é à parte. Aqui não tem tempo, não tem hora, nem fronteira, não tem fim. Desse lado não tem hipocrisia, nem beijo cordial, lágrima fria, riso forçado, gozo velado, sentido forjado, peito vazio. Aqui a medida pra ser é não ter medida. Aqui é de verdade.

Acho tão contraditório no que tange meu ceticismo me ver agradecendo misticamente a quem quer que seja, quaisquer dos deuses ou arcanjos passantes, a tua presença na minha vida. Ali, sob tua testemunha oculta pelo sono, beijo tua testa e digo “obrigada”, enquanto vejo uma lágrima vívidamente colorida pelo meu sorriso escapar sem querer, e rolar sobre teu rosto. “Que grande ironia”, eu penso sozinha. Como se pode ter o melhor sonho acordada? Acabamos aprendendo novos significados... Descobri o do sono R.E.M.

O castelinho de ilusões



Já estou dentro do castelo quando dou por mim. O chão espelhado, além fazer o ambiente tomar dupla proporção, me força a assistir meus passos em ângulo inferior. Acima de mim, um teto colossal, decorado com fotografias de partes do meu rosto sobrepostas, confusas, formando um mosaico disforme de mim mesma, que eu não gosto de olhar. Ao meu redor só o que vejo são 7 portas. A curiosidade me toma, e abro a primeira.

É uma sala abarrotada de gente, de todos os tipos. Imediatamente a porta atrás de mim se fecha, e tento abri-la sem sucesso. Pergunto o que esta acontecendo, como eu saio de lá, e todos respondem ao mesmo tempo, apontando para as mais distintas direções. Não há espaço, não consigo respirar, as pessoas me puxam, e riem diabolicamente, eu me lembro de Sartre e penso que devo estar no inferno. Vou empurrando as pessoas no meu caminho, porque não encontro outra forma de tentar achar algum.

Elas me puxam, puxam minhas roupas, se espalham pelo meu corpo, e milhares de mãos seguram meus braços. A algazarra conjunta de vozes e falas indistinguíveis me angustia de forma tal que sinto vontade de arrancar meus tímpanos. Estou assustada, sem saber como sair dali, se há saída, e me abaixo simplesmente, no meio da multidão, tapando os ouvidos. Sinto me pisotearem, e grito, e meu grito se confunde no meio da balbúrdia, e ninguém me escuta, nem me vê, e aquilo é tão familiar que eu não quero nem explicar o quanto. Sou cuspida por alguma força misteriosa para fora da porta, que repentinamente se abre, e vejo o povo correndo na minha direção e porta se fechar fazendo um estrondo que ecoa por todo o castelo.

Permaneço alguns minutos no chão, sem forças. Levanto-me cambaleante e caminho até à segunda porta. Sinto um medo abissal em abri-la, ao mesmo tempo que minha mão já gira o trinque, e nesse momento eu penso no quanto é o meu medo quem me faz abrir portas. Eu vou abrindo devagar, e ela faz um barulho que me lembra qualquer filme de terror mal-feito. Uma penumbra me permite apenas distinguir a silhueta dos móveis antigos, dispostos numa composição melancólica, de ar londrino. Aos poucos percebo o papel de parede estampado, poltronas listradas, vasos com flores artificiais, as cores são mortas, tudo me parece completamente sem vida.

Escuto um choro de criança, e a procuro por tudo. Até que vejo um pezinho perto de uma janela cerrada, atrás da longa cortina, que arredo imediatamente e vejo uma menininha. Ela cobria os olhinhos com as mãos, tão assustada quanto eu não demonstro nunca estar. Eu tento acalmá-la, lhe pedindo para não chorar, nem ter medo, e então sinto aquela força me puxando para fora da sala novamente. Tento me segurar em qualquer coisa, não quero deixá-la sozinha, mas a força me expele impiedosamente e a porta se cerra. Eu sinto uma culpa tremenda, uma sensação de fracasso, fico por algum tempo batendo na porta desesperadamente, tento arrombá-la. Em vão.

Percebo que tenho que seguir. Não há outra coisa a fazer. E abro a terceira porta esmagada pelo peso da minha própria impotência. Dessa vez é um quarto. Ele é pequeno, claustrofobico, feito inteiro de aço. Tudo ali é feito de aço, as paredes, a cama, os travesseiros, o armário, os objetos. Tem um imenso espelho pendurado na parede ao lado da cama, e me coloco de pé a sua frente. Ao invés de um reflexo humano, eu vejo minha forma robotizada. Olho imediatamente para meu corpo, que continua igual. Mas o reflexo é o de um ser de lata. Programado para sorrir, para dizer bom-dia, para reagir com cautela, para cumprir sem margem de erro todas as tarefas. Não consigo encarar o reflexo, e fecho os olhos. Quando me vejo, já estou no centro do palácio, com quatro portas a minha espera.

A quarta e a quinta porta, tinham uma passagem direta entre uma e outra, como uma continuação. Ambas eram o meu passado. A primeira, um passado remoto e a segunda, recente. Todos os crimes, todas as dores, as inocências perdidas caminhando junto com sonhos desfeitos em formas ectoplasmáticas. Os amores bem ou mal vividos, as perdas, os bons momentos, os livros, os discos, os filmes, as cartas, as fotografias. Meu primeiro sapatinho, meu primeiro desenho, meu primeiro caderno, minha primeira vez, minha primeira queda na realidade, meu primeiro veneno anti-monotonia. O quadro de medidas que meu pai costumava marcar o meu tamanho com o ano, “Manuela, 1989, 1,23m”. Cadernos, diários, agendas, alguns sons e cheiros, que me inundavam de recordações e saudades. Não queria mais seguir. Queria permanecer ali estacionada, não porque me sentia bem, mas porque me sentia presa, como se não houvesse outra escolha. Nesse momento fui novamente lançada ao centro do castelo.

Obrigada a deixar aquelas portas para trás, abri a sexta. A sala era gigantesca e parecia vazia, completamente vazia. Chegava a ser grotesco. No primeiro passo que dei, eu simplesmente caí. Mas ela não tinha chão. Eu estava em queda livre. Ela não tinha fundo. Eu apenas caía. E enquanto caía, via ao meu redor as inúmeras coisas que eu  inutilmente uso para tentar me segurar, ou para preencher caricatamente aquele espaço vazio. Todas elas estavam ali, sem exceção, e todas ali reunidas pareciam minúsculas, totalmente incapazes de cobri-lo, pareciam uma piada. Ali eu vi o tamanho do buraco que a minha alma tem. Foi aí que voltei, não sei como, da queda ao centro do castelo.

Eu tinha que abrir a última porta. Andei até ela, e respirei fundo. Pensei um pouco antes de agir, como sempre não muito. Eu abri. Uma ventania veio em fúria para cima de mim. Dei um passo para frente, de olhos fechados, juntando toda a coragem que me restava. A porta bateu em explosão atrás de mim. Abri os olhos, e vi uma praia. Não era uma praia comum. O mar era negro, com ondas violentas, nenhuma vegetação ao redor, e a areia a minha frente tinham pegadas tamanho 35 em direção a água furiosa. Estrondos de trovão sem raios. Um ar gélido tomou conta dos meus pulmões, entrou na minha corrente sangüínea, e começou a me congelar de dentro para fora. Ali eu entendi.

Voltei ao centro do castelo, ainda tremendo de frio. Me deitei no chão, de braços abertos. Uma das partes do mosaico do meu rosto caiu do teto, e se espatifou no chão perto de mim. Foi quando vi que ele estava prestes a desmoronar. Permaneci deitada, de braços abertos. Eu tinha uma calma inacreditável para aquela situação, vivia o paradoxo da minha própria calma, eu já sabia ali. Foi quando acordei. Depois disso a minha analista finalmente concordou comigo que meu inconsciente é sarcástico e cria metáforas cinematográficas.


Efeito Borboleta



O texto a seguir é do meu querido amigo Francis Londero, figurinha repetida aqui nesse álbum eternamente incompleto. Além de psicólogo, mestrando, astrólogo, poeta, inteligente, e possuidor de um sarcasmo singular que só cabe a sua pessoa, o cara ainda arrasa quando escreve. Segue o feito:

Ontem à noite, ao me deparar com a profunda vontade de fazer nada, acabei por ligar a tv. Deparei-me com um filme do qual já ouvira falar milhares de vezes. Ouvi gente relacionando-o com a física quântica e sua famosa frase de que “uma borboleta batendo as asas no Japão mexeria com a força das ondas no mar latino americano”. Se não é bem assim a frase, é quase isso...

A película retrata em grande parte o desejo de todos, de poder voltar ao passado na tentativa de garantir um presente perfeito, mais sereno, tranqüilo e feliz. Quem nunca se imaginou voltando ao passado e fazendo sua vida de outra maneira? O que é perturbador neste filme é que o destino do garoto muda sim, mas não da forma que ele tinha planejado. O caos sempre joga junto com o sujeito os dados do destino: efeito borboleta!

A grande sacada que podemos tirar do filme pode ser assimilada a partir do conceito nietzscheano de amor fati - amor ao destino. Não importa como as coisas procederam na vida a partir das ações tomadas, mas sim na maneira em que se aceita “pelear” nos acontecimentos efetivados em vida. No querer o seu destino sempre e de maneira infinita. No perpassar pelas mesmíssimas coisas infinitamente para sempre.

Ora, com um desejo assim, como alguém iria se dar ao luxo de “errar” em suas escolhas de vida? É somente desejando de maneira infinita o próprio destino que o criamos originalmente. Amamos o destino e neste caso já não se tem certo ou errado em tal percurso, já não é importante o que se efetivou enquanto vida, mas sim a intensidade de vida que se colocou em tais avanços. Vida criativa do amor fati...

A questão é: somos capazes de desejar com tanto desprendimento a vida, não se importando mais para o que deu certo ou errado? Imagino que não, ao menos, na grande maioria do tempo. Afinal, podemos ver o quanto tentamos nas possibilidades de fuga do destino que já se realizou. Reféns de um passado lamentado, sussurros que enraízam o sujeito na tristeza errada que se transformou o presente.

O interessante nesta história toda, é que no mundo contemporâneo, além de cairmos em crises de lamúrias por um passado perdido, ainda temos de maneira mais discernida a ciência de que o passado retocado, mudado e transformado no que seria ideal não dá garantia nenhuma de felicidade e de certeza de que nada dará errado.

O mundo contemporâneo se caracteriza por uma verdade que desliza, que nunca é encontrada e concretizada. A partir de seu modos de subjetivação, dilui-se o mundo romântico de final feliz, de verdades e certezas. E nesta diluição das verdades, do enfraquecimento e mesmo da diminuição de uma identidade no sujeito contemporâneo, vemos o mesmo dançando entre seus fracassos na medida em que, ou fica a lamuriar seu presente insatisfatório fruto das ações passadas, ou se vê desamparado na impossibilidade de produzir seu futuro, devido à potência que o plano de virtualidades lhe oferece.

Ora, não se tendo mais instituições “fortes” que lhe digam o caminho “certo”, o homem contemporâneo se encontra perdido para tomar para si tamanha liberdade. O que fazer então com os efeitos produzidos por anos de domesticação que despotencializaram o sujeito, enquanto ser liberto? O que fazer para que as escolhas feitas não se tornem um fardo quando o mesmo olhar para elas no passado?

A questão é saber se o efeito borboleta que desejamos transcorre a partir da produção de desvios no que já se passou, ou se ele se passa na criação de desvios a partir dos processos de atualizações do mundo virtual, do mundo em potencial que está aí para se realizar. No caso do primeiro, olhar para trás na tentativa de apagar pegadas mal feitas. No segundo caso, a afirmação das pegadas que se vai marcando na estrada da vida.

O (re)encontro* - Parte II



*Série “Contos e Desencontros”



Irreconhecível. Foi o melhor emprego que já usei da palavra. E não era pelo vestido florido mais comportado do que um cão amestrado. Nem pelas unhas curtas e peroladas, pela casa "tranqüila" demais, pelas sandálias rasteiras, ou pelas sacolas da fruteira carregadas de legumes, verduras, algumas bananas, maçãs e peras, quiçá era pela franja no cabelo penteado e escovado com as pontas voltadas para dentro.

Era pela falta de luz. Dos olhos, dos sorrisos, dos gestos, dos trejeitos. Nos tempos sofregamente áureos, nenhuma alma pequena poderia olhar fixamente sem desviar o olhar, devido à luz. Esta que eu não encontrava. Eu estava na casa de dois estranhos. “Você mudou”. “Você também.” O abraço prolongado e forte de sempre me reviveu o peito tal como um desfibrilador revive um coração recém infartado. Senti correr nas veias uma saudade imensa, que nem sei explicar como havia conseguido anestesiar.

Na noite do mesmo dia seu marido saiu, e ficamos a sós na cozinha enquanto ela preparava um chá. Eu estava escorada no balcão, ainda com a mesma cara pasma que fiquei desde o primeiro momento, observando aqueles trejeitos que não reconhecia, de uma fragilidade adquirida, de uma desconexão sofrida, de uma liberdade infringida. Ela me sorria educadamente, era cordialmente gentil, e aquilo servia para me matar por dentro. “Não quer chá? Quer vodka?”, disse entre risos incertos.

Não respondi nem sorri de volta. “Ele te bate?”. Foi o suficiente para ela cair no choro. Fui até ela e sentamos no chão da cozinha. “Quer que eu o mate?”. Vi o primeiro riso solto. Mas ele não a batia na carne. Fazia pior. Escutei ela me contar a história de como se conheceram, de como ele a foi domesticando, lhe podando primeiro as garras e por fim as asas. De como foi para o mundo e caiu naquela vida que não a pertencia. Ouvi sobre os jogos, as outras mulheres, os assassinatos diários.

Ela não o amava, nem ele a ela. Ele a provia na matéria, ela o provia na perversão da supremacia. Não a toa ele perseguiu um dos bichos mais selvagens, não a toa a falta de brilho me remetia a uma cabeça de caça pendurada na parede. E ela estava infeliz, de uma infelicidade que só quem trai a si mesmo conhece. Ela sabia. Eu sabia. “Decepcionada?”, me perguntou entre soluços, ao que respondi “ainda não”.

Disse o que qualquer um diria, não havia como escapar do denominador comum. Ela hesitou. Segurei o rosto cabisbaixo de desculpas esfarrapadas, erguendo sua cabeça a força e fixei os olhos dela nos meus, não lhe dando escolha, senão me encarar. Era preciso não falar. Em silêncio, ela escutou que havia me chamado procurando por ela própria, e que eu ali estava fielmente, cumprindo o papel.

Continuamos nos olhando em silêncio, até que eu disse que deveria ir embora. Ela entendeu. Peguei as malas que nem cheguei a desfazer. Da mesma forma de sempre, amava sua liberdade, e minha função acabava ali, sob o risco de engaiolá-la na amizade, o que seria uma traição verdadeira.

Beijei seus lábios, e ela me agradeceu por ter vindo, momento no qual eu pude enxergar os mesmos olhos vivos de outrora. “Sempre que precisar”. Não faço a mínima idéia por onde ela anda, o que me deixa feliz. O vento me sussurra que nunca no mesmo lugar. Ouvi dizer que pouco tempo depois disso se separou. Mas prefiro acreditar que ela se reuniu.

O (re)encontro* - Parte I





*Série : “Contos e Desencontros”.




Ela se aproximou por pura insistência, mas ganhou minha amizade por competência. Não tínhamos nem duas décadas de vida, mas sentíamos tal como idosas descontextualizadas observando nossos representantes na juventude esgotada. Compartilhávamos a paixão pelos palcos e platéias, a revolta incurável e aquele vigor incansável em querer mudar o mundo começando por si.

Ela me fez – por mérito irrestrito – admirá-la, respeitá-la e amá-la. Era livre, era brutal, tinha uma das mentes mais ativas que já havia visto. Não tínhamos diploma ou título, mas os vários feitos cotidianos nos valiam mais do que qualquer papel na parede que comprovasse qualquer falsa identidade. Apesar do frescor de nossa pouca idade, havíamos percorrido mundos ainda não descobertos pelas massas ou esferas.

Nossas escolhas nos separaram. Eu escolhi a trilha tradicional do medo prestando vestibular. Ela escolheu cair de boca no mundo. E caiu, em vários sentidos. Juramos jamais perder o contato, mas não cumprimos. Eis que anos após aquela adolescência tresloucada, através de um telefonema inusitado em plena e pacata quarta feira, escuto uma voz familiar d’outro lado da linha. “Salve”, ela disse com uma entonação menos impositiva do que costumava me saudar.

Tinha voltado, tinha casado, morava noutra cidade, não era longe, precisava me ver, não sabia exatamente por que, mas sabia que era urgente. Sábado daquela mesma semana eu já carregava o porta-malas do carro prestes a passar o final de semana numa cidadezinha da serra gaúcha, sem saber o endereço, o telefone fixo, nem quem ela tinha se tornado, já que reencontros são sempre reconhecimentos.

Telefonei ao entrar na cidade, e ninguém me atendeu. Sem saber para onde ia, parei em um café para decidir por quanto tempo ia seguir telefonando até fazer o caminho de volta pra casa, descarregar o porta-malas, recolocar as roupas no armário, a saudade no peito, a indiscrição na impossibilidade e todas as palavras não ditas em textos, destino amargo que um bom expresso parecia amenizar.

Antes do café chegar meu telefone toca novamente, e ela agora ao descobrir que eu já tinha chego, me explicava o endereço de sua casa numa imediaticidade verborrágica que me deixava sem saber o que fazer. Anotava tudo em guardanapo? Registrava as informações no gravador da máquina fotográfica? Pedia a gentileza em poder ditar as coordenadas para garçonete sorridente que amigavelmente transcreveria em seu bloquinho de pedidos? Ou apenas não ouvia nada do que não parecia ser preciso escutar e perguntava o que estava acontecendo? Optei pelo guardanapo, pedindo para ela soletrar e me dar tempo.

Sem dúvida algo estava acontecendo, constatação que nada me ajudava em qualquer diagnóstico hipotético, porque sempre existe algo acontecendo. Tomei o expresso queimando a língua e decidi ir logo. Me perdi por pouco tempo, o que já é excepcional. “Uma casa creme com margaridas na entrada e um muro pequeno na frente coberto de trepadeiras”. Me parecia algo tão trivial para ela. Se ela me dissesse que morava no alto de um penhasco ou em cima de uma figueira creio que acharia mais apropriado.

Acabei achando a tal casa creme mais pacata e menos ela que já tinha visto. Estacionei na rua de paralelepípedos, no espaço cedido pelos meninos que ali jogavam bola. Das janelas da frente beiradas com flores, à entrada de pedras em contraste com a grama recém cortada, indo até as sombras das árvores vizinhas, todos os elementos compositivos pareciam me dizer que eu estava no endereço errado. Conferi o número da casa e o nome da rua novamente e não estavam.

Busquei-a na memória. Cabelos, língua e sorrisos soltos. Bela. Peculiarmente encantadora. Era o que a memória me oferecia. Sai do carro, passei pelo caminho de pedras dispostas na grama, toquei a campainha, que parecia ter feito TUM-TUM ao invés de TIM-TIM. Um homem alto atendeu, e disse que eu deveria ser quem eu era de fato, me chamando pelo nome como se tivéssemos sido apresentados.

Me convidou para entrar, se ofereceu para descarregar meu carro, checou meus seios, trouxe as malas para dentro, explicou que ela havia dado uma saída e já voltava, me mostrou meu quarto de hóspedes em cima das escadas, checou minha bunda, e antes que eu gritasse ouvi a voz dela. Meu queixo quase caiu de uma altura de 1,60 m quando a vi.

(continua...)


Desculpe decepcionar...



Quem me acompanha já percebeu. Até quem me vê lendo o jornal ou na fila do pão já se deu conta. Para quem me escutar cantarolando pelas ruas, estará na cara. Mesmo que não escreva necessariamente sobre mim, não há como separar por completo a escrita do autor. Perdi o fio? Talvez. Sigo escrevendo assim mesmo porque escrever não é para quem quer. Nem para quem pode. É para quem não tem escolha.

O conteúdo mais aéreo dos escritos, entretanto, parece estar aborrecendo alguns e dentre estes, alguém em particular. Gosto bastante de saber que incomodo, me ampara de cair na mediocridade. Uma amiga certa feita me cuspiu uma sentença que me transtornou brevemente, referindo-se às mulheres. Disse que elas toleram outras mulheres bonitas e burras. Feias e inteligentes também. Segundo ela, para a maioria representacional do gênero, “mulheres bonitas e inteligentes não tem perdão”.

Vou além. O que incomoda o cerne da falta de existência é felicidade. Fato. Sempre fui muito íntima da tristeza, uma das melhores amigas de um artista. Construímos – eu e ela – uma relação sólida, miraculosamente baseada em completude. Uma trazia os desencantos, a outra transformava em cantos. Minha lealdade é tamanha, que adoraria ter mesmo feito ou passado – por pelo menos – metade das coisas que dizem por aí que vivi. Certamente minha escrita seria densamente mais interessante. Além de que eu entraria no livro dos recordes por ter superado os limites humanos de sobrevivência.

Suscitaria curiosidade e me faria vender livros. Isso sem mencionar o conteúdo ilimitado da minha biografia. Dariam roteiros de filmes a peças jamais representadas na esfera cinematográfica ou na história teatral. Também não hei de desmentir nada. Conhecem aquela velha história falem bem, falem mal? Se a frase clichê não existisse, eu a patentearia. Até porque se falam pelas minhas costas, significa que estou no lugar certo, na frente.

Ocorre que o inesperado me aconteceu. O pesadelo de qualquer poeta. O letargo de um artista. O fim do bom samba. Foi de repente, súbito, impensado, repentino. Me vi assim, admirando o jardim do vizinho que nunca tinha reparado. Vendo mais cores, encontrando sentimentos escondidos, caçando sonhos fujões. Sorrindo sozinha. Boba. Tola. Ridícula. Feliz.

Tenho dificuldade em lidar com isso. Por vezes me vejo desejando ter a minha tristeza de volta. Ou a minha revolta crônica, que permeia de sarcasmo meus textos. Sei que voltará qualquer dia desses, só não sei quando. Enquanto isso os “anônimos”, que certamente não se alfinetavam com uma garota triste, vão ter que continuar não suportando me ver assim, rindo à toa.

Entendo, eu mesma quase não suporto. Mas o que eu vou fazer? Garanto que tenho tentado! Tenho lido Lipovetsky e Nietzsche como nunca. Inclui no Ipod músicas que fariam qualquer “Emo” revirar o olhinhos. Revi varias vezes “Réquiem para um Sonho”, “As Horas”, “Dançando no Escuro”, dentre outros. Derramo algumas lágrimas discretas, esfrego o nariz e não dá 5 minutos estou sorrindo de novo.

Será que terei que apelar? Assistir a Globo? Freqüentar baladas? Comprar literatura de auto-ajuda pra ver até que ponto as coisas chegam? O problema é com a permanência da sensação: ela parece não perdurar. Não tenho culpa, aconteceu. A vida sorriu pra mim. Ou eu pra ela. Ou as duas coisas. Prometo que seguirei tentando, mas por hora estou estupidamente feliz. Desculpe decepcionar.

Atrás do escuro



Quem partiu a noite? Ou já será esse um costume nosso? Já está tarde e o sono deve estar fazendo amor com a tranqüilidade em cima de alguma nuvem insurgente. “Fica tranqüila”. Como se estar viva não fizesse mal algum pra quem padece. Ocorre que ainda não descobri como vou me inventar diante dessas importunas horas gagas à tua (quase) frente? Tudo isso pra não ter que encarar o destino de te amar ao lado da tua ausência, que piora quando escurece. Perco mesmo a fala, em fidelidade a mim mesma, entenda.

Não consigo morrer nas madrugadas porque são nelas que a vida chega. E as roupas todas espalhadas pelo chão fazem o melhor cenário da verdade tão perturbadora para os andantes vestidos. Estes que não entendem que minha alma tem índole obscena e opta por viver nua. Eu quem não deveria entendê-los, afinal, que alma precisa de vestes?

Nada em mim se faz mais ou menos. E nenhum de nós dois somos frutos ou serventes do acaso. Tenho medo do que faz sentido, mas prefiro continuar assim para me proteger da conveniência. De qualquer forma duvido muito que tu tenhas fôlego para enfrentar meus excessos, meus instintos, minha insônia, e especialmente minha clandestinidade. Prefiro crer que te preservo. E confia que o faço, a meu modo.

Não tenho código de barra, de gênero, de comportamento, é inútil me procurar em qualquer uma das inúmeras conjecturas mundanas. Mas tenho alma suficiente para alcançar o horizonte. Sei que com o passar dos dias esse miocárdio vai parar de me golpear no ritmo frenético em que se encontra neste exato momento. E sei que o vento vai levar com ele todos os lugares que teu cheiro me faz ir, mesmo que ele agora esteja por todos os cantos, mas desencantos são assim mesmo, fixados na minha pele.

Estou sim, cônscia dos pormenores. Estes pequenos detalhes. Quem mora atrás da cortina. Quem é artista sem platéia. Quem monologa ao telefone. Quem tanto almeja que se priva. Quem se esquece por tanto lembrar. Quem enxerga no escuro. Ah, e claro. Que o vento e eu, vamos para o mesmo lugar. Ele como eu, nunca verás. Mas sentirás quando viermos.

Mensagem de fim de ano




O texto a seguir desta vez não é meu. Uma excelência escrita por meu caríssimo amigo Gabito Nunes, do Caras Como Eu. Um neo-romântico, sem a falta de sal e pimenta de um Romeu shakespereano, mas sem os excessos da canalhice a la Nelson Rodrigues. Para quem não conhece o trabalho do escritor, permeado com uma malícia requintada, frases acrobáticas, maestria no verbo, pitadas de sarcasmo e pureza de sentido, vale a pena conferir.

Gabito é simultaneamente um colhedor e um artesão. Ele colhe as essências, os corações sufocados, a descrença, a dor, os amores em seu primeiro sopro, as paixões, as renúncias, os sentimentos ou a falta deles, as manifestações mundanas, as palavras possíveis e as não ditas como matéria prima, além de sua própria insustentável leveza de ser, e então confecciona escritos belíssimos. E apesar do nome de anjo, escreve como o diabo gosta. Por isso, claro, leio todo dia.
Segue:

FELIZ DESENCARGO DE CONSCIÊNCIA
" A mesma cena se repete quase o ano inteiro. De seis de janeiro a meados do Natal, tiro meu carro de ré da garagem, manobro, acelero em frente e cruzo com meu vizinho de porta. Aceno incerto com a cabeça num "e aí?" e ele age como se eu tivesse trazido o vírus Ebola para o bairro ou jogado sua filha pelada num fotolog.


Moro numa região nobre da cidade, apelidada jocosamente de "Beverly Hills". Onde os vizinhos não têm nome, onde os vizinhos cheiram free shop, onde os lares são doces, mas não irradiam laços nem desarranjos familiares. Aqui não tem churrasco na laje, não tem auê na rua, não tem dor de dente, não tem algodão doce, não tem Jorge Aragão a todo vapor, não tem criança jogando futebol com goleira de chinelo havaianas. Mas - uêba! - vai ter festa de Natal chefiada pelo vizinho fonofóbico. Pasme.


É a lei da recompensa. Debite sua frigidez e indiferença no mundo o ano todo e pague as contas do seu amor pagão no Natal, à vista, por desencargo de consciência. Instale luzinhas coloridas e ridiculosamente piscantes, ornamentos filiformes decorados com algodão em alusão à neve que miraculosamente rebentaria em temperatura veranista, e meiões megalo-patéticos onde um senhor de roupa vermelha e barba branquinha supostamente descarregará os presentes que não fizemos por merecer. Chamam de espírito lúdico, eu de esquizofrenia coletiva decorada com veadinhos.


A Broadway é aqui, onde todos tem uma peça super produzida a apresentar, sedentos pelos créditos, por desfilar em carro de bombeiros, disputando a tapa os figurinos de boca de palco. Pierrôs, Arlequins e Colombinas protagonizando grandes feitos. Enquanto isso, os pequenos gestos agonizam. A gente ama se odiando, à distância, trocando aqueles dois beijinhos "socialite" pra não borrar a maquiagem ou enganchar as máscaras cirúrgicas.


Ojerizo sim essa funçanata "dingobel", mande fazer uma placa de "anti-social". Penduro no pescoço com gosto, se "socializar-se" for dar um abraço anual, geralmente em dezembro, embalado por Vangelis ou Mariah Carey, ceando na mansão da tia Ilse, parabenizando canudos e anéis de formatura, cantando "adeus ano velho" bêbado, suado, com o cofrinho de fora. Feliz ano novo, tudo de novo.


Prometi nenhuma resolução este réveillon, mas abro uma exceção. Eu prometo gestos banais. Não fingir que não vi o braço amputado da tia que me vende capuccino, não fingir que minha avó não está mais viva, que desconheço a frustração sentimental da mãe do meu amigo, que não vejo o alcoolismo do meu colega, a cara suja de fome do piá indígena na sinaleira, que meus amigos narcóticos não são responsáveis pelo roubo do meu carro ou minha crônica falta de ar dentro do terno preto, feito sob medida para aparentar alguém que não sou. Meu pai me ensinou duas coisas nesta vida: 1. Não abra o vidro de pepino com faca; 2. "All You Need Is Love". E o filhodaputa estava certo. O resto é merda mal saneada.


Promessa feita, começo a atravessar velhinhas na faixa de segurança depois do Dia dos Reis, claro. Quando desmontarem essa parafernália que pisca e não cacifa um facho de luz pro fim do túnel. Não darei o gostinho de que esta "mini-reflexão-natalina" respingue iluminação artificial nas minhas boas ações. Só pra contrariar, coerentemente."

Depois deste texto, fico mais confortável pra desejar um feliz Natal e ano novo para todos. Pronto falei.

Talvez no tempo da delicadeza...




Acordei sem despertar naquele dia. Todas as pulsões chacinavam-se, esgotadas. Meus pensamentos espalhados por todos os cantos, como cigarras performáticas de um verão glacial. A princípio pétalas, mas ali o caule inóspito revestido de um silêncio mortal.

Quando caminho por entre as sombras dos teus aforismos, vejo que são tão ou mais desordenados do que os meus. Não fazes idéia. Reprimiria os anseios submetidos à ordem de infração, sob teu magnetismo indesviável. Até mesmo me soltaria sem bússola caso fosse, mesmo que sem pouso. Ainda que sem repouso. Faria.

Entendo os receios, mas quanto à confiança devo alertar que sou um contra-senso aos que duvidam. Aos que não crêem sou mesmo um paradoxo, um demônio de silfos vestindo asas barrocas. Para os que não se arriscam na exuberância da soltura, aceito que me culpem. Que assim seja e me poupem de seus desgostos.

Nós somos d’outra natureza. Teu espírito também foi tecido em lugar edênico e estamos atrelados pelo mesmo fio. As mesmas dores, a mesma angústia, que já cristalizam pelas frestas de virtudes. Os subsídios já estão todos forjados.

Quanto às pedras atiradas, não procuro lapsos de bondade em olhares alheios, por onde possa encontrar ciscos de reconhecimento vulgar. Nem mesmo desejo partilhar parte da culpa através dos julgamentos de outrem. Faço por inteiro e que a conseqüência seja cabalmente minha. Hei de seguir da mesma forma, sem margem, sem método, com amor irrestrito.

Destas almas inquietas como as nossas, dizem, depois  que morrermos teremos vivido. Só então viraremos bons poetas. Mal sabem de onde viemos, por onde andamos. Ignorantes dos ventos que nos fazem içar as velas, bebendo poesia no remanso das águas. Que assim seja a sentença e custo. Cada qual sabe da própria renúncia, mesmo que seja por inabilidade.

Ainda tenho erros por cometer, e não há como ser d’outro modo. Assino cada um com nome, sangue e digital. E após toda essa deselegância virá nosso tempo, onde te alcançarei subitamente, irreversivelmente. Quiçá na face imprevista da poesia que corre a galope,  abruptamente carregada pelo vento. Sem mágoa, sem volta. Por inteiro.

Rosas do cotidiano




Se por onde passo, arrasto.
No passo, no lastro, no riso
Fica sempre o espaço guardado
Esse que não é de ninguém
Esse que é do mundo inteiro

Lembranças sorrateiras
Visitam-me de madrugada
Sorrisos petrificados
Já me escorrem pela face
Sem garantia de memória futura

De lembranças, quero os olhos
Os mesmos olhares calados
Até que percebo que não são lembranças
Até que entendo que estão fixados

E descubro que desconheço o sossego
O silêncio é um grito contido
A claridade é a ausência de escuro

Continuo passando sem passeio
Continuo sentindo sem abrando
E se tento é atentado
O dano tem gosto de morte
A dívida, de vida inteira

O espinho da flor é abrigo
Mas fere sem justificativa
A lâmina do corpo é só tristeza
A lâmina no corpo, também



"Elephant Gun


If I was young, I'd flee this town
I'd bury my dreams underground
As did I, we drink to die, we drink tonight
Far from home, elephant gun
Let's take them down one by one
We'll lay it down, it's not been found, it's not around
Let the seasons begin - it rolls right on
Let the seasons begin - take the big king down
Let the seasons begin - it rolls right on
Let the seasons begin - take the big king down
And it rips through the silence of our camp at night
And it rips through the night
And it rips through the silence of our camp at night
And it rips through the silence, all that is left is all
That I hide"

Nos olhos de quem vê. No peito de quem sente.




As divagações prodigalizadas e a dissimulação no tom que permeava a prosa já estavam lhe incomodando há algum tempo. Haviam percorrido quase todos os assuntos. Ela, na verdade. Ele se sentia perseguindo-a por plantações de milho, onde escutava sua voz, sem precisar de onde vinha. O tom da argumentação desbotada parecia uma verdadeira arte em protagonizar o nada. Sem vida. Sem calor. Vazio. Não conseguia encontrá-la. Exclamou quase em súplica:

- Quando tu vais finalmente tirar essa roupa?


Disse, com o olhar mais intrusivo que ela podia se recordar, pelo meio da íris intrêmula.

- Como assim?
- Vai tirar ou vou ter que tirar pra você?

Ela não acreditava. Só poderia estar ouvindo errado. Avistava por detrás dele uma enorme vitrine de vidro, que separava o café em que estavam sentados da rua. Lá fora passos nervosos. Ali dentro lenços de papel secavam suores de testas distintas, e os últimos goles dos restos amargos de expresso, tomados em pé. Lá fora, luz-cinza do urbanismo diurno, cujo clarão lhe rasgava menos a córnea do que o par de olhos a sua frente.

- Não entendi o que você disse.
- Precisa que eu fale mais alto? Quando vai tirar essa roupa?

O tom era incisivo, alguns escutaram. A expressão no rosto dele, a levava para bem longe da feição trivial da garçonete que seguia esbarrando as ancas largas em seu cotovelo e para bem perto do açougueiro de confiança de seu pai, que cortava uma peça de costela com a fúria equivalente ao prazer de cada talhada.

- Enlouquecestes? Quem lhe dá o direito de falar assim comigo?
- Tu mesma, através das tuas insinuações!

Pasma, atordoada, ainda incrédula, sentia algo lhe correr no cerne para estalar no rosto. Justo ela, recatada como era? Justo ela, que jamais havia tomado a iniciativa frente ao interesse em um homem? Ela, se insinuando? Não, jamais. Ela, nunca. Já prestes a se levantar, ele tomou a frente da menção lhe impedindo a passagem com a mão, indo de encontro com a dela. Segurando-a, disse :

- Espere!

Embora um leve rastro de tenuidade na voz, o olhar era o mesmo. Fixo, indiscreto, quase um estuprador de suas pupilas. Ela, uma moça de existência. Haviam tantas e tantas da outra laia. Ela, que não se contentava apenas com o nome de batismo ou do que se resolvia batizar. Ela que prezava por respeito, intimidade, tudo o que não tinham. Ah não, ela não. Ela queria gritar. Lhe queimar o rosto jogando-lhe o capuccino pela metade.

- Não te deixo sair daqui sem uma resposta! Ainda não entendeu a pergunta?

Sentia tudo que pulsava ao mesmo tempo. O que continha, ali parecia acordar. As maçãs rubras da face denunciavam o misto de vergonha e revolta, sem saber qual das duas lhe tomava em maioria. Como um raio, tudo aquilo que nunca dissera antes lhe correu pelo tubo-digestivo. Não trancou, quando viu que chegara até a garganta.

- O que pensa que eu sou? Qualquer uma? Pensa que sou como essas mulheres com quem te envolves? Pensa que sou garota de uma noite? Que tu vais comer e cuspir fora, feito caroço de azeitona? Ah não, meu caro. Eu não. Nunca lhe dei a liberdade para falar dessa forma comigo. Nunca, está ouvindo? Vocês homens não prestam. Vem uma mulher e só pensam em uma única coisa: sexo. Nada mais que isso. Selvagens! Exijo que se desculpe, antes de me levantar daqui para nunca mais olhar na tua cara!

Ele permaneceu a sua frente, e voltou a tocar a mão dela, prontamente retirada. Uma curva entre os olhos dele, advinda da testa franzida, lhe completavam a feição. Desta vez, a perplexidade lhe embasava a retina. Alguns minutos de eternidade em silêncio. Sem desviar o olhar, lhe falou calmamente.

- Não estava me referindo a sexo. Perguntei quando tu vais tirar esta veste que usa para o resto do mundo, e se abrir comigo. Desde a primeira vez que eu te vi, quero te encontrar mas tu não deixas. Tem sempre uma palavra, um sorriso insincero, uma fala vazia na tua frente. Mas algo em ti insinua, algo que não sei quando abre, mas sei quando fecha. E esse algo me diz que tu precisa da pergunta para fazê-lo. Queria apenas poder te enxergar como és. Queria que pudesse te mostrar, como se nunca antes tivesse feito e te machucado. Queria poder te conhecer sem artifício, sem vestimenta, sem máscara. Este sou eu. Muito prazer.


...
...
...




Relacionamento aberto. Topa?



Olha, meu bem. Nós temos que conversar. Sim, eu sei o quanto a gente se gosta em ordem sempre crescente, quanto nosso encontro tem o raríssimo poder de parar o tempo e tua presença, o surpreendente efeito de me trazer mais calma. Surpreendente é a palavra que define um bocado de coisas sobre ti. E isso é bem complicado nesse mundo de iguais.

Eu sei também que o mais natural agora seria considerar tua requisição de oficialidade e titular o cargo. Mesmo por uma questão prática, porque essas definições civis ou pré-civis não têm importância alguma para mim. Mas assim poderíamos abdicar do malabarismo de conceitos que o mundo parece exigir, ao referirmos um ao outro. “Quem é ele(a)?”. “Ah, minha... amiga.” “Rolo”. “Ficante”. Termos dolorosos estes. Meu namorado e/ou minha namorada. Fim de papo.

Um “porém” existe, no “entanto”. Para isso, teremos que fazer um contrato prévio. Realidade posta, devo confessar que tenho uma necessidade um tanto quanto inusitada, e não sei se tu vais aceitar. Sei que é diferente, meio moderninho ou mais velho que o mundo. Sei também que é preciso coragem além da conta para permitir isso. Entendo perfeitamente. Mas preciso te pedir, porque sem este detalhe não dá, espero que tu entendas também.

Além de te namorar, eu quero ter um caso com vários homens. E algumas mulheres. Pronto, falei. É bem isso, diretamente falando. Não tem como introduzir de outra forma. Mas não acaba por aí. Tem mais, e consiste na parte mais difícil. Não só eu quero que tu aceites meus casos “intraconjugais”, mas que tu mesmo me apresente a cada um. Isto porque tu já me apresentaste para alguns extremamente interessantes, e então penso que tu podes, além de ser meu namorado, ser uma excelente via de intermédio. Será que isto te soa muito estranho?

Eu quero ter um caso com menino que mora aí dentro. Esse que quando fica doente, corta o dedo, tem dor de cabeça, de barriga ou outra qualquer, fica completamente regressivo, assustado e manhoso, mesmo que jamais confesse, sempre jurando que realmente se sente pela hora da morte. Tenho um instinto materno para nutrir.

Quero ter um caso com teu lado feminino, que dá palpite nas minhas escolhas, indo das cores dos vestidos até as que podem mudar meu futuro. Que adora conversar, e tem sensibilidade para ouvir até o meu silêncio, indo além da competência pragmática. Pode ter o tal instinto materno também, porque muitas vezes o “menino dramático” sou eu.

Quero ter um caso com teu lado homem mais velho, que me ensina sobre a vida, que saiba coisas que eu não sei. Que critique a minha inconseqüência e impulsividade. Que me lembre que precocidade não é sinônimo de maturidade. Que ostente o prazer sem ressalvas, moralidades ou preconceitos.

Quero ter um caso teu lado adolescente, idealista, sonhador, inconformista, em constante transição. Esse que ainda não cansou porque esta apenas começando. Com um tanto de ingenuidade, um tanto de romance, mente agitada, corpo pulsante, sorriso escancarado, passo largo e peito aberto. Tenho uma inquietação crônica para dividir.

Quero ter um caso com teu lado artista, que como cegos e crianças, enxergam no escuro. Que faz milagres. Cuja própria retina incide em um portal entre o mundo dado pelos sentidos e consensos, tal como ele não é, e o mundo das estrelas distraídas, das cores essenciais, das verdades circundantes, dos verbos transcendentes, dos outros universos.

Quero ter um caso com teu lado feminista-pero-no-mucho. Contra os assédios execráveis pelas ruas, os preconceitos a respeito das capacidades intelectuais, filosóficas e políticas das mulheres, contra a condenação das saias, mercado de trabalho e divisão de tarefas, mas a favor das diferenças evidentes de gênero, sabendo que cabe ao homem assumir a direção numa viagem, as lâmpadas queimadas, e as latas de conserva.

Quero ter um caso com teu lado espontâneo, que dê risada quando não pode, que fala o que pensa mesmo se for qualquer bobagem, porque bobagem falada não é besteira. Esse lado que se arrisca, que petisca, que não ensaia, não faz pose, não sobe no palco, canta no chuveiro, me convida pra dançar na sala, se lambuza tomando sorvete, se declara em público, que não teme a exposição e acha que ridículo é seguir a regra e que estranho é parecer normal.

Quero ter um caso com teu lado homenzinho, que bebe cerveja com os amigos, xinga vendo futebol, acha que encontra o caminho sozinho, joga bola nas quintas, lasca o joelho, pede cuidado, não encontra objetos que estão a poucos palmos do nariz. Que me faz andar do lado de dentro da calçada, e faz de conta que presta atenção quando eu falo nos efeitos maravilhosos do último creme que comprei pra pele quando na verdade esta tentando pressagiar os possíveis placares dos jogos do Brasileirão, para ganhar o bolão de apostas entre os camaradas.

Quero ter um caso com teu lado tranqüilo, que encontra felicidade em balanço de rede, som de violão, fruta colhida do pé, ar gelado da serra, barulho das ondas, uivo de vento. Que faz amor sem pressa, beija sem intenção, que toca meu braço e põe meu cabelo atrás da orelha instintivamente quando eu conto do meu dia, que me diz que vai ficar tudo bem quando me abraça forte e me lembra que já estamos distantes de tudo.

Não quero que fechemos a nossa relação em conceitos ou exclusividades identitárias. Quero um relacionamento aberto. Se amor não for amor-livre o suficiente para que a gente possa ser, então vamos ter que chamar de outra coisa porque amor não é o nome disso. Em suma, eu quero todos. E todas. Quero conhecer teu inteiro e te apresentar o meu. Quero ter o teu inteiro, e poder te dar o meu. Topa?





* Foto de Ritinha, que apropriadamente também atende por Rita, Ana Rita, Babaloo e também se permite viver a pluralidade de si.



Caminho das Pedras



Sob a enorme pedra da palavra que encera um assunto, existe uma pluralidade de vocábulos, discursos, expressões, verbos, sujeitos e predicados esmagados. O diálogo empedrado referente consiste em: “Oi, tudo bem, o que andas fazendo?”. Geralmente é seguido por: “Oi, tudo e contigo? Ah, o de sempre, estudando, trabalhando”.

A pedra se chama cordialidade posterior. Ao que? Varia bastante. Não pretendo responder, então petrifico assim. Levantando-a porém, encontrarias a seguinte resposta:

Como tudo pode estar bem do jeito que as coisas estão? E mesmo que assim não estivessem, ainda teria fome no mundo. Então não está tudo bem, nem jamais estará, pelo menos no prazo que se estende do meu nascimento a minha morte, depois não sei.


Ando fazendo uma porção de coisas. Continuo pensando em ti todos os dias. Sinto tua falta um tanto. Reencontrei-te por um triz para desencontrar tão depressa, que tempo anti-horário foi esse? As vezes te procuro na memória, porque tem traços bem singelos do teu rosto que a ausência já me anda embaçando. Sabe como diz a música, “o esforço pra lembrar é a vontade de esquecer”.


Continuo fumando meus cigarros de cereja eventualmente, tentando comer bem regularmente, treinado assiduamente, lendo compulsivamente, arriscando inconsequentemente, sentindo exageradamente e trancando o choro que toda noite vem me visitar em forma de insônia.


Sigo tentando me convencer que o não teve inicio nem fim simplesmente não existiu, e sou tão quase boa na argumentação quanto na arte da negação. Permaneço inconformada com o esvaziamento da nossa geração, temendo muito me perder a ponto de me acostumar.


Continuo cantando todo dia, independente do meu humor, o que varia é letra de canção, O violão que sabe. Sigo escrevendo e estudando todos os dias. Tenho pintado e desenhado bem menos do que gostaria, inspiração nunca falta, o que falta é calma. E gosto de ter, para tal. De onde ela vem mesmo? Sim, voltei a escutar Los Hermanos infatigavelmente.


Ando com medo de uma porção de coisas. De ser cais que nunca recebe a chegada. De ser navio que nunca encontra o porto. Ou de continuar sendo oceano, que tanto abriga, mas tanto revolta. De ser “estanque, como quem constrói pontes e não anda”. A juventude passa tão rápido, e desde muito cedo sinto o desgosto de vê-la arrancada de mim. Nos últimos dias anda me assombrando ainda mais.


Minha alma continua tão ou mais inquieta como da última vez que nos vimos, minha mente idem. Meu coração anda aprendendo sobre reciclagem e desenvolvimento sustentável, mas continua com déficit de atenção. Sigo em forte crise existencial e minha intimidade casual com a filosofia tem piorado bastante o quadro.


Continuo lutando contra mim. E por vezes me vejo correndo atrás da cenoura, feito o burro de carga. Continuo levando tristeza nos olhos, aperto no peito, e por vezes me sinto insustentavelmente leve de tão pesada. Tão inundada que emudeço. Mas bem sei que o que fala meu silêncio é língua morta, quase ninguém traduz. Talvez ninguém mais além de ti.

Pactuemos então, e deixemos as pedras quietinhas. Tudo bem?

Homem de verdade!




Tem certas coisas que você nunca verá um homem de verdade fazendo, pensando, escolhendo, aceitando, sentindo, ou mesmo tentando por em prática qualquer uma das alternativas anteriores. Mesmo que constitucionalmente não exista um Código de Conduta oficial do homem de verdade, pergunte a qualquer machão sobre o comportamento e ele terá na ponta da língua frases começadas com “sempre”, “geralmente”, “quase nunca” ou “jamais”.


Por exemplo, homens e flores. Os de verdade tem uma relação intencional com as flores, que se resume em comer uma mulher. Então, utilizam do recurso abarrotando floriculturas, carregando discursos prontos e manjados para preencher um cartão cujo texto não vai distanciar dos adjetivos “linda”, “querida”, com  predicados como “adorei te conhecer”. Agora, plantar, admirar, fotografar, ter em casa, saber distinguir diferentes espécies de flores, “jamais”. Não é coisa de homem de verdade.


Tem certas coisas que um homem de verdade jamais aceitaria de uma mulher em um relacionamento. Que ela tenha registro virtual (orkut, msn), a não ser que mencione explicitamente que é comprometida. Vida social também não é bem vista. Algumas amigas igualmente comprometidas são admissíveis. Solteiras não são bem vindas. Amigos de sexo oposto, inaceitáveis. Sair sozinha, com a amiga comprometida para tomar um café no final da tarde, tolerável. A noite com as solteiras, jamais.


Ter opinião também. Porque escutar opinião de mulher? Sua mulher é a conquista que já prova que ele é o “cara”, ora. Aquelas que pensam muito já dão problema. O mais conveniente é que não sejam muito inteligentes, ou pelo menos, incapazes de calcular o QI deles com a facilidade com que fazem com calorias.


Sobre comportamento, tem certos mandamentos teóricos facilmente observáveis na prática. Por exemplo, a atratibilidade de uma mulher é definida pelo tamanho de seus membros inferiores, glândulas ou próteses mamárias. Todo par de pernas a mostra, decotes, ou roupas justas devem entrar em seu campo de visão, e toda mulher gostosa deve ser comida com os olhos (ou com outro membro), independentemente de estar ou não acompanhado ou comprometido. Largar cantadas pela rua, baladas, caçar na academia, na faculdade, até no supermercado, são perfeitamente habituais.


Negar fogo a qualquer mulher que queira lhe ceder o corpo é incabível, manda a lei dos homens de verdade. Em termos de sexo, preliminares existem automaticamente porque as revistas ensinam que fazem parte e macho de respeito tem que ser bom de cama (na fama principalmente, muito mais importante). Comedor. Pegador. Nada de muita trela, dormir abraçadinho, conversar depois da transa. Sentimentos em penetração? Impenetráveis.


A matemática é simples, regra de três: futebol, mulher e cerveja. Sendo ou não nessa ordem de importância. O que os homens de verdade encontram são mulheres de verdade, essa é a verdade da história. Quem? As tristes, as que usam sexualidade pensando em “garantia” de futuro, as muito inseguras ou de baixa auto-estima, as completamente passivas na relação e bastante ativas nas baladas, as que tem o tamanho do glúteo inversamente proporcional ao do cérebro, as que classificam o quanto um homem é interessante pela potência do motor de seus carros e renda mensal. Ah sim, e as desesperadas.


A verdade destes homens de “verdade” consiste em provar ao mundo sua própria virilidade. Filosoficamente, verdade é aquilo que se tem como realidade. Portanto, prefiro manter distância da amostra representacional e lamentavelmente real. Quero um homem “frouxo”, que se afrouxa das amarras de conduta, esses que se soltam. Que sentem, que gostam de filmes, livros, com assuntos e interesses mais nobres, que saibam conversar e escutar. Que não acham que passar segurança para uma mulher equivale a ter voz firme, ordem e falta de progresso. Os que choram. Que tem bíceps hipertrofiados de tanto remar contra a corrente.

Quero os que se arriscam ao ridículo. O ridículo de se apaixonar, de largar um “eu te amo” ao telefone na frente da turma do Bolinha. Os que fazem amor. Um original, sem limitações, desses que te deixam expelindo poesia pelos poros. Quero um homem fora da lei, contra-regra. Quero os rebeldes, os transgressivos, os inconformados, os que não se acostumam, os marginais do código geral.


Dispenso os que podem confundir minhas coxas com a de outras moças, e me mostrem toda dor. Quero os que encontraram ideologia pra viver, que descobriram o que é força, coragem e caráter de forma autodidata. Procuro aqueles que colocam em xeque a teoria darwiniana, trocando a suposta evolução por revolução. Que saibam se inventar e reinventar. Os homens de “verdade” eu passo, deixo para as mulheres de “verdade”. Ou da grande realidade, o que dá na mesma.

A hora da Partida





Fiz um pacto comigo. O de escrever este texto até o final sem chorar. Um desafio a tudo o que aqui dentro ofega, ergue, lembra, cursa, agita. Justo eu, que conheço tão de perto a partida. Essa sem ter planos e de poder voltar quando quero. Mas tem um problema sério, que se chama eco. Explico.

Uma das coisas mais tristes na vida, é encontrar alguém que te faz crer que existe um eco no mundo para tudo aquilo que te enlata o peito, te transborda pelas palavras por que nelas não cabe, te descolore de sonho em carga diária. A promessa de que há, mas não vem. Aquele quase, aquele perto, aquele um pouco antes, um pouco depois, você nem sabe mais onde no tempo. Aquela saudade imensa que fica de tudo o que não se viveu. Isso é uma das coisas mais tristes na vida.

No caso presente, o problema foi ter encontrado o eco ressonante, um irmão de existência, um bicho como tu, ter sentido o peito desentupindo, a palavra cheia e já desnecessária e a vida à cores de arte surrealista. A vivência de que há, de que veio. Aquele todo, aquele encontro, aquela hora exata, aquele além de tempo e espaço. E ele partir, para deixar aquela saudade absurda de tudo o que se queria continuar vivendo.

Mas isso é pequeno. Grande é tua existência ter feito marca na minha de forma tal que eternizastes a ti mesmo em mim. Grande é tua liberdade em ser do mundo, de voar alto, de desprender-se, de arriscar. Grande foi tudo que tu trouxestes e que vai ficar presente na tua ausência, sacramentado na minha vida e em tudo o que dela parte. O efeito se vê ao redor.

Poucos são os que sabem o que fazer com as próprias asas. A saudade é só um lado da mesma viagem, o mesmo trem que chega é o que parte. Obrigada por tudo! Meu mundo tu já marcastes, agora é o outro mundo que te aguarda. De qualquer forma, sempre esqueceremos do mundo quando nos encontrarmos, mesmo que por vias metafísicas. Vou acabar antes de quebrar meu pacto inicial comigo mesma.

Avesso




Depois da escuridão vem a luz. Mas a luz, como tudo, tem no mínimo duas faces. Ou clareia-te os passos, ou te cega inospitamente. Cabem aos roteiros de universos limitados o ato performático de bom ou mal. Vida real meu bem, ah, isso são alguns poucos minutos por dia. O resto é o que faz parte do script. Te tornastes o escarro aleatório da tua própria crença, e o que me parece desprezível é que te contentas em servir à isso, mesmo que – por motivos óbvios – tu negues.

Ah, se tu soubesses do que eu abdicaria ou renunciaria, caso pudesse, só para assistir florescer em tua face um sorriso mais calmo. Como foi que deixastes o mundo te corromper de tal forma que acreditastes que o que se vê é tudo o que é possível de ser visto? Quem conseguiu te convencer que o melhor cálice é aquele onde não se bebe? Se eu pudesse, alimentaria o que resta de fome nos teus olhos com ainda mais fome, para que nunca mais deixes de enxergar como deveria. Mas enterrastes minha onipotência com uma grande parte tua.

Veja como a cena se repete, insistentemente. Nascemos com tanta vida para padecermos cada vez mais, a cada dia. Tudo do avesso. Lembro-me das coisas mais formidáveis, as simples. Tuas mãos sempre em concha segurando a enorme xícara de chá enquanto o frio estourava ao lado de fora e nublava a janela álgida, com um olhar tão tenro que derretia as geleiras que eu trazia do mundo em mim. Esses mesmos olhos que me espiavam por detrás de algum livro, quando me via voltar pela noite, com as dores da rua, com poesias colhidas, com a arte lanhada, com a gradação dramática. Nunca precisamos de palavras.

Estes olhos eram a minha casa cheia. Eram estes olhos que me adentravam pelo peito, e me traziam de volta do anestesiamento, dos venenos, das pulsões de morte, e são a estes mesmos olhos que me remeto quando o chão se escapa dos meus pés, quando o mundo congela, quando a gravidade me esmaga. Sabes bem que entendo do escuro. Sabes bem que fui tão mais além, até do que pretendes ir. O que não sabes é que volto e te rastreio os passos. O que não sabes é que vou ao inferno quantas vezes for preciso, e que conheço mais atalhos que tu.

Enganas-te. Não pense que é coragem se jogar assim. Só se joga quem tem medo. Coragem é se desatar das amarras. De mim jamais terás a piedade que finges esperar. Eu desisto, no dia em que te olhar nos olhos e não mais te encontrar. Eu desisto quando a minha frente, avistar um par de olhos vazios, sem resgate. Nesse dia sim, o fim virá para mim também. Enquanto ainda ver história em teus olhos falantes, enquanto teu silêncio seguir em nada calando, enquanto escutar no eco do vento teu choro, não desisto. Te desafio a voltar. Te desafio a sentir. Te desafio a viver.

Esse monstro de olhos verdes...




Ah, querido. Funciona assim. A gente tem umas feridas primárias, dessas que, ou a gente vai limpar pra sarar, mostrando pro analista que as raspa com lamina afiada e joga álcool por cima, ou vai passar o resto da vida se relacionando a partir disso. Toda ferida aberta funciona como lembrete. E tudo o que se aproxima, já vira repulsa instantânea, defesa do corte que já se tinha. Não fostes tu quem o fizeste, mas remexes e me lembra que ele existe.

É querido. Mas é como o veneno homeopático que adentra na veia do braço exposto ao soro, e amarga-me os órgãos. É como um envolto negro a me abraçar, cegando-me os olhos. É o que desafia-me a razão e o juízo para lançar-me em queda livre no lado escuro do medo, da cólera, amnésica do bom senso por ter ultrapassado o portal do recurso primitivo. É quando meus seis pecados outros se revoltam e firmam guerra a tua cobiça.

Não querido. Eu sei que você me ama, me deseja, e não me trai. E sei que abordagens ou cortejos não lhe hesitam. Mas entenda. Eu preciso de mais, quero tudo, quero todos os olhares e desejos, quero tua ação solitária, exclusividade em teu pensar. Quero que todos os teus lados, como uma multidão formada e reunida em um só homem, a mim se voltem. Teu globo ocular carrega todos os olhos que desejo apoderar.

Sim querido. Sei que sou bela, e esperta, e formosa aos teus olhos. Entenda, não é problema de auto-estima. Ou é. Mas não de falta. É de excesso, querido. É algo que me enforca na pergunta “mas como”? Como não és em teu desejo mais secreto, inteiramente voltado ao meu ser? Como pode existir espaço para qualquer outra em tua imaginação que não eu? Como o corpo alheio te pode guiar os olhos em minha ausência? Eis o mal que me consome.

Não, querido. Não precisa ser real. Imaginário também. Pode ser a do filme, a da revista, a vizinha que todo garoto sempre quis ter, pode ser qualquer coisa que tenha seios, e glúteos, e panturrilhas, e belas pernas, menos de 1,80 de altura, voz feminina, rosto delicado, e pés pequenos. Eu entendo, querido. Eu sei que tu não queres outra, mas querido, eu quero todos os teus outros.

Eu vejo querido. Então, digamos que minha ferida é narcísica. Uma delas ao menos. Dor de filha mais velha que quer ser única em pelo menos uma coisa na vida. É corrosivo do meu próprio amor. Prefiro então minar a terra e secar o plantio a tempo de não ver brotar nosso jardim em terreno vizinho de outras flores. Deixo-me esquecer de tudo que me importa então, para que meu ego se proteja do aniquilamento, mesmo que nem para ele importe mais.


Querido?
...
Querido?
...

Onde estão teus olhos?


Dadaísmo ao Moralismo






Julgaram a saia, a moça, e as coxas, o Cristo e o Anti que é pai de todos. Todos por um, um por ninguém, mas a priori é ordinária. Comum mesmo é o mais barato. O vulgar custa caro. Eu espero não crer na descrença, que é de onde toda crença parte. Credito a palavra e o gesto, mesmo sabendo que não há crédito algum. Se espero já tenho esperança. E esperança é a corda que todo desesperado se agarra na última das circunstâncias.

Deixo passar, mas o que passa? E o que se passa? Eu me passo, sim eu sei. Mas nem sei nada, sabendo tudo. Se tem algo que o mundo fala é falácia! Se tem algo que eu não escuto é o que o mundo a fala. Mas de que mundo venho? Estou quase certa que eu não sou daqui. Mas se cá estou devo ter algo em comum com a priori ordinária, com o mais barato e com o vulgar, e deve vir desta conclusão a esperança.

Mas e a moça, e a maçã, e as coxas? Vão tão bem que não vão nada bem, é o que dizem por aí. Aí e lá, e lá ou acolá vem do além, lá de onde eu venho também. Então é tudo aqui. O fora é dentro, e o dentro é fora. Um quadro cíclico. Círculos enganam bem. Por isso o mundo é redondo. É cada um no seu quadrado, não é? Mas e os seios, e as fogueiras, e as bruxas, e os desejos?

Quem são eles? Que homens são tão homens? Que mulheres são tão mulheres? Demasiadamente humanos? São tantas perguntas erradas, de respostas certas. São tantas perguntas certas, de respostas erradas. Quem vive de sedução é a fruta podre que caiu da árvore, e tenta convencer o colhedor de que é melhor que a do topo, ele finge que acredita e come. Os livros evolucionistas nada evoluem. Existe um mundo além da reprodução e da sobrevivência. Com tanta hipocrisia, em que saia-justa nos metemos.

Cansaço é o que resta quando a esperança falha. Cansei de ter esperança. E agora, como faz? Faço certo pelo errado, o vento trás a direção. É o que ouço pelos cantos, que descubro nesses tantos desencantos. O que mais confio é na desconfiança que sempre tive. Anti é aquilo que se prega na moral. Cristo!

Metamorfose





Não sei dizer exatamente como foi. Sei que não foi de um dia para o outro também, disso tenho certeza, devido à complexidade e grandeza da questão. Acontece que parei de juntar meus cacos. Parei simplesmente. Percebi que aqueles cacos que tanto me empenhava em juntar remontariam uma sósia assustadoramente remendada do que eu já fui.

Cansei também da auto-piedade, a gente tem tanto dó da gente mesmo que chega a chorar, um absurdo. Desisti de remoer a busca imóvel por tudo aquilo que estava em algum lugar que eu nunca tive acesso, mas que por saber que existia, perdia todo o tempo do mundo procurando. É preciso desistir de certas coisas, para não desistir de si mesmo.

E era preciso abrir mão de quase tudo o que eu acreditava sobre mim. E fazê-lo sem referência alguma já é o retrato do desamparo. Se não tinha referência nem em mim mesma, partiria de onde? Que assim seja, invento o novo. Se seria uma grande mentira ou não, já não importava mais. A verdade em si não deixa de ser uma questão de fé. Grande parte da verdade sobre algo ou alguém existe porque alguém crê, a existência sem crença torna o reconhecimento da verdade inacessível.

“Um troço qualquer morreu”. Sem direito a ressurreição, reencarnação, ou reclamação. Se isso se perdeu no passado, não existe. Mas falo de mim aqui, ao contrário do Cazuza que velava o “entre”. Se o que fui estava morto, o que me restou foi perceber que estava viva. Tinha o dever de construir uma nova obra de mim mesma. Teria que me reinventar. Criar mesmo. Se não sou do tipo que faz releituras ou réplicas de obras, seria contraditório fazer isso comigo.

Onipotência a minha? Ora, se eu não me governar, nem de Deus mereço respeito. Defina-me. Decifra-me. Já devorei todos que tentaram. Cansei. Voltei a questão a mim, e tentei também. Acabei por me consumir. Mas não é essa a beleza afinal? A possibilidade de ser ou não ser? Já não sou mais tão criança a ponto de ser porque sou e pronto. E não sou tão adulta a ponto de ser pra receber em troca.

Já posso ser o que eu quero e manter a minha palavra. Ser fiel a si mesmo já é mudar o mundo.