Modéstia à parte. Modéstia parte! Modéstia? Aparte...


“Eu acho que tu devia ganhar dinheiro com isso” foi o que ela me disse, onde a primeira pessoa seguida do verbo achar foi posto estrategicamente para que não parecesse uma sentença demasiado invasiva. Digo isso pelo tom afirmativo em que a frase foi dita, e porque eu também sempre começo com “eu acho” quando digo a alguém o que este alguém deveria fazer com a própria vida, ou com parte dela. Ela se referia à minha escrita.

“Mas eu acabei de dizer que o problema central na proliferação da literatura consiste no fato de ela, assim como tantas expressões artísticas, terem virado indústria”, respondi rindo e de forma sincera. “Sim, mas tal como na análise, o dinheiro também consiste no reconhecimento a algo que se dá de si”, retrucou minha amiga formanda em psicologia ao meu blá, blá, blá. Me saí com essa: “Mas eu tenho ganhos! Os ganhos não necessariamente passam pela moeda. Tenho libido investida ali, mas as vezes um ganho pode ser o mero esvaziamento da angústia, que a escrita pode proporcionar.” “O sexo na caneta”, ela riu. “É meu falo”, eu ri. Assunto encerrado.

Como se algum assunto, qualquer que fosse, se encerrasse dentro da mente de uma mulher. Encerrado nada. Pronto, ela conseguiu me plantar aquela coisa chatinha e redundante da dúvida, do “e se?” que eu levei pra casa. Sem modéstias cordiais, sou boa pra caral.... na argumentação. Sério, eu consigo convencer alguém sobre qualquer coisa quando quero, se duvidar me procure. Te convenço do contrário.

A questão que ficou ecoando em mim foi o porquê eu quis argumentar ali e convencer ela do contrário se depois fiquei com essa droga do “e se?” me atazanando. Porque eu não fiquei quieta ou apenas disse “é, talvez”. Pensei nisso quando me sentei no carro, ainda em São Leopoldo, rumo pra casa. No caminho me lembrei de um episódio com outra amiga, no vestiário da academia, quando disse que a barriga dela estava bonita. Ela me falou que não adiantava nada ter a barriga bonita já que ela tinha a bunda lotada de celulite, e culotes no quadril que não saíam nem se ela corresse uma maratona por dia e comesse como alguém que acabou de cortar fora 90% do estômago em uma gastroplastia, palavras dela.

Então me lembrei da minha implicância com todas as minhas amigas que são bonitas por dentro e fora e não conseguem dizer “obrigado” quando elogio algo sobre elas, sem me apontar um defeito em lente de aumento. Pensei no quanto implico com todos que tem idéias interessantes mas insistem em parafrasear filósofos ou escritores renomados como alterego, ilimitadamente, com medo de assumir a própria palavra e responsabilidade sobre ela. Me lembrei de como implico quando meu namorado insiste em ressaltar que não  é profissional quando alguém elogia suas fotos, mesmo que tenha curso, técnica, arte na veia e principalmente um olho cuja sensibilidade, técnica alguma proporciona. Aí refleti no quanto a própria implicância é sempre a identificação da gente com algo, e que não a toa tinha lembrado de tudo isso.

Eu já tinha chego em Novo Hamburgo quando voltei a frase inicial, à minha reação, ao "e se?" chatinho, e sobre o quanto aquilo foi mais um elogio que eu não consegui aceitar. E agora pergunto, porque a gente tende a se desculpar quando alguém reconhece algo bom sobre a gente, seja o que for? Me desculpe por ser bonita, me desculpe por ser inteligente, me desculpe por ter talentos, me desculpe por ter boas idéias, desculpe a minha criatividade, desculpe as minhas boas fotos, desculpe minha existência. Porque nos desculpamos? Por que nos sentimos culpados? Porque a gente afasta o olhar do que é bom na gente apontando o que não é, ou desviando pra outra coisa?

Seria talvez por que nos achamos tão grandes, tão fodões assim lá no íntimo que o elogio explicitaria nosso ego inflado que ninguém deveria ver? Medo da própria perversão? Seria porque no fundo tudo o que gente quer é ser amado, e ser amado é ser reconhecido? Seria por termos medo deste amor não ser incondicional, nos sendo insuportável receber doses homeopáticas de amor implicadas em reconhecimentos parciais? Ou nem tanto, do risco do amor em si? Seria nada disso, teríamos aprendido que boa educação, bons meninos e boas meninas devem fazer apologia à modéstia? Estou aberta a respostas, pra quem tiver. E se alguém tiver gostado do texto, já saiba de antemão que meu cabelo anda cheio de pontas duplas.



Filosofia e Arte!

Fui convidada pela Juliana Guterres para ministrar uma Oficina de Escrita Criativa no Encontro de Filosofia e Arte da Unisinos, e queria avisar sobre o evento para quem se interessar.

É um projeto super bacana, que objetiva promover o diálogo entre a Filosofia e Arte, assim como com outros meios de pesquisa acadêmica. Essa articulação da Arte com as demais ciências sempre foi algo que senti falta enquanto aluna da Unisinos e achei a idéia além de inovadora, extremamente rica.

Eu pretendo também trazer na oficina uma pincelada de Psicanálise baseada nas idéias freudianas discutidas em "Escritores Criativos e Devaneio" (1907), que acho um texto bárbaro. A idéia é que seja um momento interativo e não didático, também em fidelidade a própria noção pessoal que possuo deste signo da criatividade e respeitando a proposta da interlocução com a Filosofia.  

Por tabela, também estarei envolvida na Oficina de Fotografia deste mesmo evento, ministrada pelo meu digníssimo Rodrigo Brzozowski, que também foi convidado, e que provavelmente também participará de uma exposição de fotografia ao lado do Franscico Machado.

A Oficina de Escrita Criativa ocorrerá no dia 08/06/2010, das 17:00 as 19:00h e a Oficina de Fotografia no dia 09/06/2010, também das 17:00 as 19:00.

Aproveito ainda para agradecer a Juliana pelo convite, e parabenizar os demais membros da Comissão Organizadora do evento, Prof. Dr. Luiz Rohden, Giovanni Andersen Garcia, João Zaqueo Origuella Jr., Leonardo Marques Kussler e Tailan Adriel Frey, pela primorosa iniciativa.





O cárcere da mediocridade X A liberdade da criação*


Quem curte ficção ou literatura fantástica deve conhecer Edgar Allan Poe. Os Crimes da Rua Morgue? A Carta Roubada? Soa familiar? Não? Pra quem não conhece fica a sugestão. Mas não introduzi o autor para dar dicas literárias. Acontece que o cara, mesmo sendo considerado brilhante, foi avaliado como louco. É, pirado, lelé da cuca, fora da casinha. E certa vez alfinetou uma frase que já estampou minhas agendas e/ou diários de adolescência: "Resta saber se a loucura não representa, talvez, a forma mais elevada de inteligência." Bueno. Uma coisa posso afirmar a respeito do tipo: era criativo. Se duvidar de mim, leia-o.

Sob o viés psicológico, a criatividade não se limita a ter idéias bacanas ou a transformar tubos de tinta óleo em telas de pintura, mas inclui a capacidade de encontrar respostas incomuns frente a situações distintas (problemas, emblemas, esquemas, o que for). Em outras palavras, a sair de um caminho que já foi trilhado e dado como certo, óbvio, absoluto. Na vida real, pode ser por exemplo encontrar uma alternativa inusitada frente a um obstáculo no trabalho, que pode ser vista como absurda pelos demais colegas, algo que ninguém cogitaria. Na maioria das vezes tende a dar certo, experiência de caso.

Um erro medroso e perigoso essa coisa de seguir as convicções mundanas. O mesmo que fez, por exemplo, a huminadade crer que a Terra fosse plana, para após ter plena certeza de que fosse quadrada. Hoje em dia já existe até uma teoria louca de que ela pode ser oca, e não o globo formado de superfície, manto sólido e núcleo de metal fundido como a gente aprendeu na escola. A mesma teoria suspeita de que existe vida, outros povos e seres em seu interior. Loucura não? Talvez nem tanto.

Mas de volta ao Edgar Allan Poe. Ele não estava – e não continua – sozinho na idéia acerca da loucura. Bem antes dele, Platão usava um termo chamado “loucura divina” para designar a base de toda a criatividade. O filósofo atribuía uma ligação direta entre estas duas instâncias, talvez não tão “duas”: criatividade e loucura. Temos diversos exemplos de pessoas que marcaram fortemente a arte e/ou o meio intelectual que não pareciam bater muito bem da cuca, dentre eles: Picasso, Einstein, Tolstoi, Dali, Nietzsche, Miquelangelo, Maquiavel, Bach, D’Vinci, Vincent van Gogh, Utrillo, Modigliani, Mozart, e acho que quase todos os demais filósofos que me lembro, só para ilustrar.

Estes e outros tantos sublimes personagens apresentavam – em maior ou menor grau – variações extremas de humor, dependência de álcool ou drogas, distúrbios de comportamento, compulsões, manias, fixações, alucinações, comportamento anti-social, dentre outras fortes perturbações psíquicas, e foram considerados loucos. Mas por quem? Sabe como é, em terra de cegos quem tem um olho é pirado.

O que ocorre dentro da mente criativa é que o intelecto não se fixa numa única busca de solução, estatisticamente comprovada e cientificamente fundamentada, mas ousa procurar – e consegue encontar – novos caminhos. O pensamento tem uma fluência muito mais livre do que ocorre nas mentes amendrontadas pelas regras sociais, noções previas de certo e errado, moral religiosa, livros de história, ou fidelidade irracional ao nosso novo pai-senhor-todo-poderoso, a ciência (jogando em alto nível hein, pras massas na maioria das vezes é a mídia mesmo).  Mentes criativas conseguem refazer, resignificar, encontrar, criar de forma independente. Um talento. 

 Na oposição entre o que é convencional e não-convencional, tido como evidente ou fora de razão, certo ou incerto, a criatividade sempre brota daquilo que ultrapassa o obviedade, mesmo que precise passar pelos primeiros para poder nascer. Posto de forma mais sucinta, mentes criativas aventuram-se indo longe demais com suas idéias e seus pensamentos, as vezes mesmo ultrapassando as fronteiras do inteligível. Mas inteligível para quem?

Ora, já é um clichê que a inteligência e o sofrimento psíquico andam intimamente atrelados. Seria uma piada pensar que encontraríamos um gênio em um desfile de carnaval ou dançando em cima de um quejinho, feliz da vida, achando que se esta aqui a passeio, vivendo na superficialidade de si. Ser é arriscar-se. Sentir é arriscar-se. Criar é arriscar-se. Não sei se a terra é oca, mas sei que muitas cabeças o são. Quando estão cheias, são postas em hospícios. É o preço. No pain, no brain.


*Homenagem ao movimento anti-manicomial, comemorado dia 18 de maio.

Por um mundo menos alienado, por uma loucura mais sã. 

Por toda minha vida



Cena 1

- Mmmm…
- Marcela?
- Não…
- Mmmm...

- Do que vocês estão brincando?
- Não estamos. Estamos pensando no nome da sua irmãzinha que esta dentro da barriga da sua mãe.
- Porque ficam falando mmmmm?
- Porque queríamos um nome que começasse com “M”.
- O que é “M”?
- Uma letra, a mesma que começa teu nome. Faz esse som, mmmm.
- Mmmmm. Manuela.
- Isso.
- Mariana, mãe. Também faz mmmmm.


Cena 2


- Amanha vai nascer tua irmãzinha.
- O que é nascer pai?
- Bem, nascer é quando a gente vem ao mundo. Amanhã ela vai sair da barriga da tua mãe, e tu vais poder conhecer ela.
- Como que ela vai sair de lá?
- O médico vai tirar ela de lá.
- Como?
- Ele abre a barriga da tua mamãe, tira ela de lá, e depois fecha de novo.
- Minha mãe vai morrer pai?
- (Risos) Não querida. Ela nem vai sentir nada. Ele dão um remedinho que faz não sentir nada de dor. Olha, agora tu vais ser a irmã mais velha. Vai ter que ajudar a cuidar dela, ensinar novas coisas que tu já sabes, ela vai ser bem pequeninha.
- Que nem um passarinho?
- Não filha. (Risos) Maior que um passarinho. Mas vai precisar de cuidado, então tu tens que ajudar a cuidar dela. Comprei esse anel para dar de presente pra tua mãe.
- Mas não é aniversario da mamãe.
- Não é, mas é da tua irmãzinha. Amanhã vai ser o dia que a gente vai comemorar depois como aniversário.
- Posso eu entregar, pai?
- Claro que pode.

Cena 3

- Esta é sua irmã, vem conhecer ela.
- Ela é careca.
- Sim, as pessoas nascem assim. A maioria, tu nasceu com cabelo.
- Ela parece uma das minhas bonecas.
- Parece, mas ela é de verdade, tu tem que ter cuidado com ela.
- Eu posso pegar ela?
- Tu ainda é muito pequena pra pegar ela, e ela acabou de nascer, ela é muito frágil querida.
- Mas pai...
- Olha ela vai abrir os olhinhos, vem ver.
- Olha filha, ela está olhando pra ti!
....
-Oi Mariana. Eu sou a Manuela. Sou tua irmã mais velha. Isto quer dizer que vou cuidar de ti e te ensinar coisas que eu já sei.



Não importa o que tu digas, nem mesmo que não gosta de fazer aniversário. Eu sempre vou ter motivos para comemorar esta data. Te amei desde o primeiro momento em que te vi, e seguirei te amando enquanto existir. Se houverem outras vidas depois dessa, te escolheria 1000 vezes para  voltar ao meu lado. Se esta vida é tudo que há, eu tenho mesmo muita sorte. 
Feliz aniversário, Mariana.

Con(sumo)






Consumimos além da conta, renda, ou juízo. Roupas desnecessárias, carros que só faltam andar em cima d’agua, eletrônicos dos mais diversos tipos, cremes em quantidade tal que hidratariam a pele dos habitantes de um estado. Bebemos aquela água suja do capitalismo com nome de droga. Nossos sorrisos reluzentes e petrificados nas colunas sociais, álbuns de formatura e eventos festivos remetem aqueles do creme-dental, fotografias que um dia nos farão lembrar do quanto fingimos bem a felicidade.


Você é um idiota completo se não tiver o tênis dos campeões e acessórios inúteis com estampa oncinha que custaram mais do que a renda mensal de algumas famílias. Falando nisso, nossos parentes não são famílias se não comerem a margarina lá no café-da-manha, hoje livre de gordura trans para não infartamos do miocárdio, mesmo que o peito continue sufocando. Nossas necessidades desnecessárias se criam conforme a tecnologia evolui, nossas ações dependem da oferta, quem financia é o ecossistema que acreditamos ter de prover nossa estupidez como um seio inesgotável.

Nossas crianças colecionam prateleiras de brinquedos improfícuos e adulterdos, nossos jovens entopem-se de objetos e narcóticos, nossos adultos adquirem tudo aquilo que a alma não consegue comprar. Tem que ter, as revistas ordenam. Vai ficar de fora? Já disse “alô” hoje pra quem você ama? Só é possível pelo celular. Aliás, compre um daqueles que manda fotos para que seu amado se lembre da sua fisionomia. E não esqueça o sorriso escovado, tão reluzente quanto aquele espelho novo, que poderia estar pendurado na altura da cintura, visto que não se enxerga nada além do próprio umbigo.

Consumimos veículos que não nos levam a lugar algum, roupas que nos enfeiam porque alguma bicha louca ditou que é bacana, eletrônicos que nos robotizam e separam cada vez mais, cama sem aconchego, mesa sem afeto, banho sem tranqüilidade. Nossas belas casas estão longe de se tornarem lares. Nossos animais de raça, pet-shopados, escovados, perfumados e de unhas feitas fazem parte de nosso visual ultra-fashion. Medimos as possibilidades de uma pessoa pelo quanto ela pode pagar.

Casamos por dinheiro. Levantamos da cama por dinheiro. Trazemos gente ao mundo por dinheiro. Temos coragem de dizer que temos medo da violência e dos marginais, sem cogitar a assustadora violência que é se empurrar alguém para fora da margem social. Seguimos brincando de invisível quando algum pirralho sujo e morto de fome vem bater na porta do nosso vidro na sinaleira, ou parodiando de heróis achando que fizemos a boa ação do dia ao puxarmos 2 pilas do bolso.

Compramos presentes no dia das mães, pais, crianças, e aniversários, cujos preços delimitam o calibre da afabilidade e dos votos. Transformamos carboidratos em afeto, e entupimos nosso corpo com as mais diversas porcarias para desviarmos dessa nossa verdadeira imundice interna. Consumimos uns aos outros e a nós mesmos, amores descartáveis, sexo seguro sem o menor risco de afetividade, e voltamos pra casa cada vez mais abarrotados por fora e esvaziados por dentro. Con... sumimos...

Entre rótulos e conteúdos

                           Fotografia: Rodrigo Brzozowski 


Sempre tive grande apreço por auto-retratos, sejam estes concretizados em qualquer forma de arte, na fotografia, na pintura, na escrita autobiográfica, dentre outros. Retratar-se nada mais é do que fazer um recorte de si. Seja este pela forma como quem o faz se percebe, seja como ele gostaria de ser percebido, seja como compreende o que os outros percebem dele. Repeti tanto essa palavra – perceber – numa catatonia intencional.

Porque percepções são circulares, maleáveis, sugestionáveis, pretensiosas. Na maioria das vezes aquilo que se torna evidente, claro como água, ou facilmente identificável é o extremo oposto da verdade. Existe uma linha muito tênue na verdadeira intenção do auto-retrato. Isso caso tenha alguma, visto que vivemos na era do vazio e a falta de sentido nos permeia cada vez mais, como Lipovestky diria bem melhor que eu. Ou seja, alguém pode se retratar puramente por vaidade. Mas posta a ressalva, a intenção implícita no ato de retratar-se pode conter tanto uma expressão fidedigna de uma parte de si, quanto servir justamente para desviar o olhar de quem vê para o que não pode ser (ou não se quer) que seja visto.

Mario de Andrade acertadamente disse que pessoas não debatem conteúdos, apenas rótulos. Essa é uma frase curta de imensa sabedoria, porém pretendo ir um pouco além dela. Afinal, qual a diferença entre o conteúdo e rótulo? Alguém certamente vai pensar, “ora, a diferença é evidente, o conteúdo é o que a pessoa é de fato, e o rótulo é quem ela se mostra ser”.

Mas se partimos do pressuposto de que o ser humano se constitui, se subjetiva e forma sua própria identidade através da interação, a coisa complica um pouco nessa “evidência”. Partindo desta proposição, precisaríamos mesmo dos olhares e até das expectativas de – pelo menos – um outro, para que pudéssemos de fato ser. Mas ser o que?

Eu acho bem gozado quando vejo alguém se definindo. Inclusive antes de escrever este texto dei uma olhada em perfis aleatórios de orkut, e vai, sei que não é lugar pra pesquisa de campo, mas confesso que faço porque me divirto. Baita pergunta essa do orkut, “quem sou eu”. Tem gente que tenta se definir pelo que gosta: “Gosto de animaizinhos, de florzinhas, do papai e da mamãe” (tirando o papai e mamãe – sem ironia – o resto é verídico, e não era de uma criança). O melhor é quando alguém se arrisca seriamente a responder, do tipo, “Sou uma pessoa calma, tranqüila...”, ou “sou muito alto-astral, de bem com a vida, bem zen...”, etc.

Será que as pessoas não se dão a mais remota conta da superficialidade em que escolhem viver? Será que nos falta tanta propriocepção para além da cinestesia? Quem minimamente se conhece, já se deu conta que a questão é bem maior e vai muito além de qualquer conceito, adjetivo, substantivo, diminutivo ou diabo que o parta.

Rótulos existem não apenas porque quase ninguém nos vê (fato), mas porque a gente mesmo cria para poder se enxergar. Somos produto de nossa própria crença. E somos tantos que somos um para cada pessoa, e cada pessoa é uma (ou varias) para nós, o que multiplicaria a população do planeta por ela mesma inúmeras vezes em termos de rótulos, matematicamente falando. 

E o conteúdo, onde fica? Talvez não fique, talvez o conteúdo seja esponjoso, mutante, camaleônico, infinito como o próprio rótulo. Se assim não fosse, se nosso “conteúdo” fosse imutável, como poderíamos evoluir? De que vale mesmo um diagnostico psíquico? Talvez tenhamos todas as possibilidades dentro de nós mesmos. Talvez nos caiba o intransponível encargo de descobri-las.

Declaração Oficial


Até agora não sei explicar direito como foi que você conseguiu entrar, só sei que nunca pediu licença.

Hemisférica em exageros como sou, só conseguiria pensar em duas formas de fazê-lo, arrombando a porta impetuosamente ou ameaçando greve de fome sem nem tocá-la, caso não abrisse para mim você mesmo.

Mas parece que nem tanto nem tão pouco, assim sem que eu percebesse mas me fazendo perceber. Pelas frestas, pétala por pétala, grão por grão ou caco por caco.

Não sei bem como, mas foi pelo solo, lá na base até então frágil, dentro no miolo. Sem expectativa de ganho, de gozo, de resultado, mas apenas porque, tal como a primavera abre toda e qualquer flor até então cerrada, não conseguia evitar fazê-lo.

Nunca aceitei te entregar raspas e restos e fiz um bom uso dessa argumentação, mas nenhuma alegação perfeitamente racional pareceu ter funcionado contigo, o que devo confessar, tenha me dado certa raiva por me retirar a satisfação pessoal de sempre ter sido boa nisso.

Devidamente irritante também tua mania ortográfica de sempre acrescentar mais dois pontos a cada término de frase, e deixá-los ali fazendo companhia em agrupados de reticências a cada ponto final que eu precipitadamente rabiscava, mudando completamente o rumo da minha história...

Também conseguiu acabar com certos conceitos acerca de esperança, confiança, amor, e outros tantos, contrariando não apenas a mim, mas ao meu corriqueiro escape nietzschiano e teoricamente conveniente.

O que sei é que conseguiu não me engolir, tal como era até então a minha experiência no caso, e modificado radicalmente minha visão até então tida como total (e hoje como parcial) da realidade das coisas, e dos relacionamentos humanos.

Além do que, delimitastes bem a distância entre sinônimos e antônimos extra-conceituais, fazendo com que tua ausência não me furasse nem me cortasse, visto que tu simplesmente não sai.

E tu nunca levou a sério minha tentativa ridiculamente ensaiada de tentar escapar, alegando direitos de consumidor para todo sim escancarado em cada não que eu tentei te vender.

Chegou um ponto que respirar longe de ti não existe, independente da tua presença física. E que cada inspiração tua deságua na minha própria, dentro de todos os sentidos possíveis de se extrair desta frase.

O mais surpreendente foi eu ter me surpreendido tanto, e o pleonasmo aqui se faz necessário. Com especial destaque a minha necessidade orgânica de sumiços que nunca te abalaram muito, sem contar tua capacidade admirável de conseguir se tornar porto de chegada para cada barco meu que insistia em partir. 

Seguro a ponto de rescindir o sentido dessa minha necessidade amedrontada de desaparecer, ou do meu jeito desconexo de pedir ajuda não pedindo, de gostar afastando, de falar me calando, ou de me esconder me mostrando.

Não me resta outra escolha senão declarar que se é para o bem da alma e felicidade geral desse coração, eu fico. Quem sabe, pra sempre.

Cogito, ergo... sum?



No fundo eu sempre quis esgoelar meu ex-professor de Yoga. E nem era porque ele sugeria que eu era um ser sem coração só porque comia carne. Não dizia em palavras, insinuava, daquele jeito: “ah, mas tu AINDA come carne?”, como quem fosse completar com “ainda é um ser inferior que precisa desta pseudo-nutrição tão primitiva e cruel?”. Eu pagava meus “pecados carnais” me lembrando do frango depenado e pendurado no supermercado toda vez que ficava de cabeça pra baixo. De fato, o frango deve se sentir muito mal nesta posição. Troglodita eu.

Agora quando ele vinha com aquela do pensamento, eu queria mais era depenar e pendurar ele naquela mandala zen yin e yang que ficava no alto da parede esquerda. Quando ele dizia que eu devia “observar meus próprios pensamentos, deixar eles passarem por mim sem entrar neles”, era quando o bicho pegava. Sem noção o quanto isso é difícil, sem falar que o próprio fato de seguir a ordem já é pensar nela. “Não devo pensar... não devo pensar... Hum, estou conseguindo, acho... Putz, acabei de pensar que consegui não pensar”.

É claro que colocar os neurônios, axônios e dendritos pra fazer sinapses é bom, perigando tornar-se real a frase chocante que escutei certa feita de um ex-professor, de que o cérebro humano será nosso próximo apêndice. Chocante e nada fictivo, se levarmos em conta que hoje em dia tudo vem pronto para o consumo (e já pensado pela gente). Então não me refiro aqui ao não-pensar presente nas massas, que não deixam de pensar por escolha zen.

Me refiro ao pensamento, em sua forma defensiva de racionalizar tudo. Essa bem característica da neurose, das nossas defesas narcísicas e egóicas. Nem tanto a existência dos nossos medos, mas tudo o que deixamos de fazer por conta deles. Penso, logo, mudo de idéia. Porque, com o perdão da ironia, pensando bem, você vai mudar de idéia. Penso, logo, não faço. Porque toda escolha tem riscos, se retirar 100% dos riscos de algo, só sobra permanecer na situação atual, ou seja, nada fazer. Penso, logo resisto. Pensando eu me protejo da emoção, e racionalizar um sentimento é uma boa forma de não ter que senti-lo.

Eu de zen não tenho nada, sou mesmo é um poço de angústia. O que tem lá seu lado bom, quando bem canalizado. Mas a questão principal é que viver de forma intensa é incompatível a estar racionalizando as coisas em tempo integral. Se juntar tudo, penso, logo não durmo. Tudo aquilo que vale a pena se viver passa longe da lógica. Aquilo que você vai se lembrar um dia, o que foi mesmo importante, o que ficou registrado, foi o que você se permitiu viver, e não o que ficou matutando sozinho no mundinho seguro de si. Não posso falar por Descartes, mas eu existo por que sinto.




Sono R.E.M



O despertar antecipado, seguido da agitação frente a saída brusca de um pesadelo, me é familiar. Mas a ironia presente nos meus sonhos, que de tão atordoados, ao invés de descansar me deixam mais cansada, perdeu lugar para outra graça. A novidade ocorre na fração de segundos em que não sei onde estou, subitamente interrompida pelo teu braço enlaçado na minha cintura, que, acrescido à tua cálida expiração na minha nuca, fazem-me pensar que nunca soube tão bem.

Me viro de frente para ti com a mesma delicadeza que faz o vento, quando sereno, vir em brisa. E é engraçado o quanto eu, que nem sabia de onde vinha a calma, pudesse entender o mais fidedigno conceito de tranqüilidade apenas te olhando dormir. Observo-te atentamente, em cada detalhe. Tua respiração, quando teu peito infla tal como se pudesse absorver a atmosfera em filtro às poluições mundanas, fazendo teu corpo  fanar em um suspiro sereno. Teu ombro encolhido, numa fragilidade que um homem só possui quando dorme, no momento em que renuncia às inflexibilidades da vigília constante.

Teu corpo embebido pelos lençóis, inteiramente entregue, parecendo um convite ao atrevido facho de luz que emana da rua e aproveita a única fresta disponível da janela. Ele se destaca da penumbra, pousando como carícia sobre a tua pele branca, a qual, quando dou por mim, já está sob os meus lábios. Beijo tua pele vagarosamente, interrompida pela tua menção em acordar, quando apenas volta teu rosto a mim sem abandonar o sono.

Contorno teu lábio inferior com os dedos, e repouso com cuidado a cabeça no teu peito, apenas para escutar a batida que faz teu coração, tão harmônico com o meu próprio, que já não consigo distinguir o que é meu ou teu nessa melodia. Nem preciso. Nem quero. Sinto teus braços sonâmbulos ao redor do meu corpo, que instintivamente me envolvem. Meu corpo parece menor e mais frágil envolvido no teu, paradoxais à sensação que tenho de expansão cada vez mais crescentes dentro de mim. Me sinto mulher, e no entanto muito mais que isso, me sinto humana.

Tão mais perto daquilo que falta ao mundo lá fora. Aqui o mundo é à parte. Aqui não tem tempo, não tem hora, nem fronteira, não tem fim. Desse lado não tem hipocrisia, nem beijo cordial, lágrima fria, riso forçado, gozo velado, sentido forjado, peito vazio. Aqui a medida pra ser é não ter medida. Aqui é de verdade.

Acho tão contraditório no que tange meu ceticismo me ver agradecendo misticamente a quem quer que seja, quaisquer dos deuses ou arcanjos passantes, a tua presença na minha vida. Ali, sob tua testemunha oculta pelo sono, beijo tua testa e digo “obrigada”, enquanto vejo uma lágrima vívidamente colorida pelo meu sorriso escapar sem querer, e rolar sobre teu rosto. “Que grande ironia”, eu penso sozinha. Como se pode ter o melhor sonho acordada? Acabamos aprendendo novos significados... Descobri o do sono R.E.M.

O castelinho de ilusões



Já estou dentro do castelo quando dou por mim. O chão espelhado, além fazer o ambiente tomar dupla proporção, me força a assistir meus passos em ângulo inferior. Acima de mim, um teto colossal, decorado com fotografias de partes do meu rosto sobrepostas, confusas, formando um mosaico disforme de mim mesma, que eu não gosto de olhar. Ao meu redor só o que vejo são 7 portas. A curiosidade me toma, e abro a primeira.

É uma sala abarrotada de gente, de todos os tipos. Imediatamente a porta atrás de mim se fecha, e tento abri-la sem sucesso. Pergunto o que esta acontecendo, como eu saio de lá, e todos respondem ao mesmo tempo, apontando para as mais distintas direções. Não há espaço, não consigo respirar, as pessoas me puxam, e riem diabolicamente, eu me lembro de Sartre e penso que devo estar no inferno. Vou empurrando as pessoas no meu caminho, porque não encontro outra forma de tentar achar algum.

Elas me puxam, puxam minhas roupas, se espalham pelo meu corpo, e milhares de mãos seguram meus braços. A algazarra conjunta de vozes e falas indistinguíveis me angustia de forma tal que sinto vontade de arrancar meus tímpanos. Estou assustada, sem saber como sair dali, se há saída, e me abaixo simplesmente, no meio da multidão, tapando os ouvidos. Sinto me pisotearem, e grito, e meu grito se confunde no meio da balbúrdia, e ninguém me escuta, nem me vê, e aquilo é tão familiar que eu não quero nem explicar o quanto. Sou cuspida por alguma força misteriosa para fora da porta, que repentinamente se abre, e vejo o povo correndo na minha direção e porta se fechar fazendo um estrondo que ecoa por todo o castelo.

Permaneço alguns minutos no chão, sem forças. Levanto-me cambaleante e caminho até à segunda porta. Sinto um medo abissal em abri-la, ao mesmo tempo que minha mão já gira o trinque, e nesse momento eu penso no quanto é o meu medo quem me faz abrir portas. Eu vou abrindo devagar, e ela faz um barulho que me lembra qualquer filme de terror mal-feito. Uma penumbra me permite apenas distinguir a silhueta dos móveis antigos, dispostos numa composição melancólica, de ar londrino. Aos poucos percebo o papel de parede estampado, poltronas listradas, vasos com flores artificiais, as cores são mortas, tudo me parece completamente sem vida.

Escuto um choro de criança, e a procuro por tudo. Até que vejo um pezinho perto de uma janela cerrada, atrás da longa cortina, que arredo imediatamente e vejo uma menininha. Ela cobria os olhinhos com as mãos, tão assustada quanto eu não demonstro nunca estar. Eu tento acalmá-la, lhe pedindo para não chorar, nem ter medo, e então sinto aquela força me puxando para fora da sala novamente. Tento me segurar em qualquer coisa, não quero deixá-la sozinha, mas a força me expele impiedosamente e a porta se cerra. Eu sinto uma culpa tremenda, uma sensação de fracasso, fico por algum tempo batendo na porta desesperadamente, tento arrombá-la. Em vão.

Percebo que tenho que seguir. Não há outra coisa a fazer. E abro a terceira porta esmagada pelo peso da minha própria impotência. Dessa vez é um quarto. Ele é pequeno, claustrofobico, feito inteiro de aço. Tudo ali é feito de aço, as paredes, a cama, os travesseiros, o armário, os objetos. Tem um imenso espelho pendurado na parede ao lado da cama, e me coloco de pé a sua frente. Ao invés de um reflexo humano, eu vejo minha forma robotizada. Olho imediatamente para meu corpo, que continua igual. Mas o reflexo é o de um ser de lata. Programado para sorrir, para dizer bom-dia, para reagir com cautela, para cumprir sem margem de erro todas as tarefas. Não consigo encarar o reflexo, e fecho os olhos. Quando me vejo, já estou no centro do palácio, com quatro portas a minha espera.

A quarta e a quinta porta, tinham uma passagem direta entre uma e outra, como uma continuação. Ambas eram o meu passado. A primeira, um passado remoto e a segunda, recente. Todos os crimes, todas as dores, as inocências perdidas caminhando junto com sonhos desfeitos em formas ectoplasmáticas. Os amores bem ou mal vividos, as perdas, os bons momentos, os livros, os discos, os filmes, as cartas, as fotografias. Meu primeiro sapatinho, meu primeiro desenho, meu primeiro caderno, minha primeira vez, minha primeira queda na realidade, meu primeiro veneno anti-monotonia. O quadro de medidas que meu pai costumava marcar o meu tamanho com o ano, “Manuela, 1989, 1,23m”. Cadernos, diários, agendas, alguns sons e cheiros, que me inundavam de recordações e saudades. Não queria mais seguir. Queria permanecer ali estacionada, não porque me sentia bem, mas porque me sentia presa, como se não houvesse outra escolha. Nesse momento fui novamente lançada ao centro do castelo.

Obrigada a deixar aquelas portas para trás, abri a sexta. A sala era gigantesca e parecia vazia, completamente vazia. Chegava a ser grotesco. No primeiro passo que dei, eu simplesmente caí. Mas ela não tinha chão. Eu estava em queda livre. Ela não tinha fundo. Eu apenas caía. E enquanto caía, via ao meu redor as inúmeras coisas que eu  inutilmente uso para tentar me segurar, ou para preencher caricatamente aquele espaço vazio. Todas elas estavam ali, sem exceção, e todas ali reunidas pareciam minúsculas, totalmente incapazes de cobri-lo, pareciam uma piada. Ali eu vi o tamanho do buraco que a minha alma tem. Foi aí que voltei, não sei como, da queda ao centro do castelo.

Eu tinha que abrir a última porta. Andei até ela, e respirei fundo. Pensei um pouco antes de agir, como sempre não muito. Eu abri. Uma ventania veio em fúria para cima de mim. Dei um passo para frente, de olhos fechados, juntando toda a coragem que me restava. A porta bateu em explosão atrás de mim. Abri os olhos, e vi uma praia. Não era uma praia comum. O mar era negro, com ondas violentas, nenhuma vegetação ao redor, e a areia a minha frente tinham pegadas tamanho 35 em direção a água furiosa. Estrondos de trovão sem raios. Um ar gélido tomou conta dos meus pulmões, entrou na minha corrente sangüínea, e começou a me congelar de dentro para fora. Ali eu entendi.

Voltei ao centro do castelo, ainda tremendo de frio. Me deitei no chão, de braços abertos. Uma das partes do mosaico do meu rosto caiu do teto, e se espatifou no chão perto de mim. Foi quando vi que ele estava prestes a desmoronar. Permaneci deitada, de braços abertos. Eu tinha uma calma inacreditável para aquela situação, vivia o paradoxo da minha própria calma, eu já sabia ali. Foi quando acordei. Depois disso a minha analista finalmente concordou comigo que meu inconsciente é sarcástico e cria metáforas cinematográficas.


Efeito Borboleta



O texto a seguir é do meu querido amigo Francis Londero, figurinha repetida aqui nesse álbum eternamente incompleto. Além de psicólogo, mestrando, astrólogo, poeta, inteligente, e possuidor de um sarcasmo singular que só cabe a sua pessoa, o cara ainda arrasa quando escreve. Segue o feito:

Ontem à noite, ao me deparar com a profunda vontade de fazer nada, acabei por ligar a tv. Deparei-me com um filme do qual já ouvira falar milhares de vezes. Ouvi gente relacionando-o com a física quântica e sua famosa frase de que “uma borboleta batendo as asas no Japão mexeria com a força das ondas no mar latino americano”. Se não é bem assim a frase, é quase isso...

A película retrata em grande parte o desejo de todos, de poder voltar ao passado na tentativa de garantir um presente perfeito, mais sereno, tranqüilo e feliz. Quem nunca se imaginou voltando ao passado e fazendo sua vida de outra maneira? O que é perturbador neste filme é que o destino do garoto muda sim, mas não da forma que ele tinha planejado. O caos sempre joga junto com o sujeito os dados do destino: efeito borboleta!

A grande sacada que podemos tirar do filme pode ser assimilada a partir do conceito nietzscheano de amor fati - amor ao destino. Não importa como as coisas procederam na vida a partir das ações tomadas, mas sim na maneira em que se aceita “pelear” nos acontecimentos efetivados em vida. No querer o seu destino sempre e de maneira infinita. No perpassar pelas mesmíssimas coisas infinitamente para sempre.

Ora, com um desejo assim, como alguém iria se dar ao luxo de “errar” em suas escolhas de vida? É somente desejando de maneira infinita o próprio destino que o criamos originalmente. Amamos o destino e neste caso já não se tem certo ou errado em tal percurso, já não é importante o que se efetivou enquanto vida, mas sim a intensidade de vida que se colocou em tais avanços. Vida criativa do amor fati...

A questão é: somos capazes de desejar com tanto desprendimento a vida, não se importando mais para o que deu certo ou errado? Imagino que não, ao menos, na grande maioria do tempo. Afinal, podemos ver o quanto tentamos nas possibilidades de fuga do destino que já se realizou. Reféns de um passado lamentado, sussurros que enraízam o sujeito na tristeza errada que se transformou o presente.

O interessante nesta história toda, é que no mundo contemporâneo, além de cairmos em crises de lamúrias por um passado perdido, ainda temos de maneira mais discernida a ciência de que o passado retocado, mudado e transformado no que seria ideal não dá garantia nenhuma de felicidade e de certeza de que nada dará errado.

O mundo contemporâneo se caracteriza por uma verdade que desliza, que nunca é encontrada e concretizada. A partir de seu modos de subjetivação, dilui-se o mundo romântico de final feliz, de verdades e certezas. E nesta diluição das verdades, do enfraquecimento e mesmo da diminuição de uma identidade no sujeito contemporâneo, vemos o mesmo dançando entre seus fracassos na medida em que, ou fica a lamuriar seu presente insatisfatório fruto das ações passadas, ou se vê desamparado na impossibilidade de produzir seu futuro, devido à potência que o plano de virtualidades lhe oferece.

Ora, não se tendo mais instituições “fortes” que lhe digam o caminho “certo”, o homem contemporâneo se encontra perdido para tomar para si tamanha liberdade. O que fazer então com os efeitos produzidos por anos de domesticação que despotencializaram o sujeito, enquanto ser liberto? O que fazer para que as escolhas feitas não se tornem um fardo quando o mesmo olhar para elas no passado?

A questão é saber se o efeito borboleta que desejamos transcorre a partir da produção de desvios no que já se passou, ou se ele se passa na criação de desvios a partir dos processos de atualizações do mundo virtual, do mundo em potencial que está aí para se realizar. No caso do primeiro, olhar para trás na tentativa de apagar pegadas mal feitas. No segundo caso, a afirmação das pegadas que se vai marcando na estrada da vida.

O (re)encontro* - Parte II



*Série “Contos e Desencontros”



Irreconhecível. Foi o melhor emprego que já usei da palavra. E não era pelo vestido florido mais comportado do que um cão amestrado. Nem pelas unhas curtas e peroladas, pela casa "tranqüila" demais, pelas sandálias rasteiras, ou pelas sacolas da fruteira carregadas de legumes, verduras, algumas bananas, maçãs e peras, quiçá era pela franja no cabelo penteado e escovado com as pontas voltadas para dentro.

Era pela falta de luz. Dos olhos, dos sorrisos, dos gestos, dos trejeitos. Nos tempos sofregamente áureos, nenhuma alma pequena poderia olhar fixamente sem desviar o olhar, devido à luz. Esta que eu não encontrava. Eu estava na casa de dois estranhos. “Você mudou”. “Você também.” O abraço prolongado e forte de sempre me reviveu o peito tal como um desfibrilador revive um coração recém infartado. Senti correr nas veias uma saudade imensa, que nem sei explicar como havia conseguido anestesiar.

Na noite do mesmo dia seu marido saiu, e ficamos a sós na cozinha enquanto ela preparava um chá. Eu estava escorada no balcão, ainda com a mesma cara pasma que fiquei desde o primeiro momento, observando aqueles trejeitos que não reconhecia, de uma fragilidade adquirida, de uma desconexão sofrida, de uma liberdade infringida. Ela me sorria educadamente, era cordialmente gentil, e aquilo servia para me matar por dentro. “Não quer chá? Quer vodka?”, disse entre risos incertos.

Não respondi nem sorri de volta. “Ele te bate?”. Foi o suficiente para ela cair no choro. Fui até ela e sentamos no chão da cozinha. “Quer que eu o mate?”. Vi o primeiro riso solto. Mas ele não a batia na carne. Fazia pior. Escutei ela me contar a história de como se conheceram, de como ele a foi domesticando, lhe podando primeiro as garras e por fim as asas. De como foi para o mundo e caiu naquela vida que não a pertencia. Ouvi sobre os jogos, as outras mulheres, os assassinatos diários.

Ela não o amava, nem ele a ela. Ele a provia na matéria, ela o provia na perversão da supremacia. Não a toa ele perseguiu um dos bichos mais selvagens, não a toa a falta de brilho me remetia a uma cabeça de caça pendurada na parede. E ela estava infeliz, de uma infelicidade que só quem trai a si mesmo conhece. Ela sabia. Eu sabia. “Decepcionada?”, me perguntou entre soluços, ao que respondi “ainda não”.

Disse o que qualquer um diria, não havia como escapar do denominador comum. Ela hesitou. Segurei o rosto cabisbaixo de desculpas esfarrapadas, erguendo sua cabeça a força e fixei os olhos dela nos meus, não lhe dando escolha, senão me encarar. Era preciso não falar. Em silêncio, ela escutou que havia me chamado procurando por ela própria, e que eu ali estava fielmente, cumprindo o papel.

Continuamos nos olhando em silêncio, até que eu disse que deveria ir embora. Ela entendeu. Peguei as malas que nem cheguei a desfazer. Da mesma forma de sempre, amava sua liberdade, e minha função acabava ali, sob o risco de engaiolá-la na amizade, o que seria uma traição verdadeira.

Beijei seus lábios, e ela me agradeceu por ter vindo, momento no qual eu pude enxergar os mesmos olhos vivos de outrora. “Sempre que precisar”. Não faço a mínima idéia por onde ela anda, o que me deixa feliz. O vento me sussurra que nunca no mesmo lugar. Ouvi dizer que pouco tempo depois disso se separou. Mas prefiro acreditar que ela se reuniu.

O (re)encontro* - Parte I





*Série : “Contos e Desencontros”.




Ela se aproximou por pura insistência, mas ganhou minha amizade por competência. Não tínhamos nem duas décadas de vida, mas sentíamos tal como idosas descontextualizadas observando nossos representantes na juventude esgotada. Compartilhávamos a paixão pelos palcos e platéias, a revolta incurável e aquele vigor incansável em querer mudar o mundo começando por si.

Ela me fez – por mérito irrestrito – admirá-la, respeitá-la e amá-la. Era livre, era brutal, tinha uma das mentes mais ativas que já havia visto. Não tínhamos diploma ou título, mas os vários feitos cotidianos nos valiam mais do que qualquer papel na parede que comprovasse qualquer falsa identidade. Apesar do frescor de nossa pouca idade, havíamos percorrido mundos ainda não descobertos pelas massas ou esferas.

Nossas escolhas nos separaram. Eu escolhi a trilha tradicional do medo prestando vestibular. Ela escolheu cair de boca no mundo. E caiu, em vários sentidos. Juramos jamais perder o contato, mas não cumprimos. Eis que anos após aquela adolescência tresloucada, através de um telefonema inusitado em plena e pacata quarta feira, escuto uma voz familiar d’outro lado da linha. “Salve”, ela disse com uma entonação menos impositiva do que costumava me saudar.

Tinha voltado, tinha casado, morava noutra cidade, não era longe, precisava me ver, não sabia exatamente por que, mas sabia que era urgente. Sábado daquela mesma semana eu já carregava o porta-malas do carro prestes a passar o final de semana numa cidadezinha da serra gaúcha, sem saber o endereço, o telefone fixo, nem quem ela tinha se tornado, já que reencontros são sempre reconhecimentos.

Telefonei ao entrar na cidade, e ninguém me atendeu. Sem saber para onde ia, parei em um café para decidir por quanto tempo ia seguir telefonando até fazer o caminho de volta pra casa, descarregar o porta-malas, recolocar as roupas no armário, a saudade no peito, a indiscrição na impossibilidade e todas as palavras não ditas em textos, destino amargo que um bom expresso parecia amenizar.

Antes do café chegar meu telefone toca novamente, e ela agora ao descobrir que eu já tinha chego, me explicava o endereço de sua casa numa imediaticidade verborrágica que me deixava sem saber o que fazer. Anotava tudo em guardanapo? Registrava as informações no gravador da máquina fotográfica? Pedia a gentileza em poder ditar as coordenadas para garçonete sorridente que amigavelmente transcreveria em seu bloquinho de pedidos? Ou apenas não ouvia nada do que não parecia ser preciso escutar e perguntava o que estava acontecendo? Optei pelo guardanapo, pedindo para ela soletrar e me dar tempo.

Sem dúvida algo estava acontecendo, constatação que nada me ajudava em qualquer diagnóstico hipotético, porque sempre existe algo acontecendo. Tomei o expresso queimando a língua e decidi ir logo. Me perdi por pouco tempo, o que já é excepcional. “Uma casa creme com margaridas na entrada e um muro pequeno na frente coberto de trepadeiras”. Me parecia algo tão trivial para ela. Se ela me dissesse que morava no alto de um penhasco ou em cima de uma figueira creio que acharia mais apropriado.

Acabei achando a tal casa creme mais pacata e menos ela que já tinha visto. Estacionei na rua de paralelepípedos, no espaço cedido pelos meninos que ali jogavam bola. Das janelas da frente beiradas com flores, à entrada de pedras em contraste com a grama recém cortada, indo até as sombras das árvores vizinhas, todos os elementos compositivos pareciam me dizer que eu estava no endereço errado. Conferi o número da casa e o nome da rua novamente e não estavam.

Busquei-a na memória. Cabelos, língua e sorrisos soltos. Bela. Peculiarmente encantadora. Era o que a memória me oferecia. Sai do carro, passei pelo caminho de pedras dispostas na grama, toquei a campainha, que parecia ter feito TUM-TUM ao invés de TIM-TIM. Um homem alto atendeu, e disse que eu deveria ser quem eu era de fato, me chamando pelo nome como se tivéssemos sido apresentados.

Me convidou para entrar, se ofereceu para descarregar meu carro, checou meus seios, trouxe as malas para dentro, explicou que ela havia dado uma saída e já voltava, me mostrou meu quarto de hóspedes em cima das escadas, checou minha bunda, e antes que eu gritasse ouvi a voz dela. Meu queixo quase caiu de uma altura de 1,60 m quando a vi.

(continua...)


Desculpe decepcionar...



Quem me acompanha já percebeu. Até quem me vê lendo o jornal ou na fila do pão já se deu conta. Para quem me escutar cantarolando pelas ruas, estará na cara. Mesmo que não escreva necessariamente sobre mim, não há como separar por completo a escrita do autor. Perdi o fio? Talvez. Sigo escrevendo assim mesmo porque escrever não é para quem quer. Nem para quem pode. É para quem não tem escolha.

O conteúdo mais aéreo dos escritos, entretanto, parece estar aborrecendo alguns e dentre estes, alguém em particular. Gosto bastante de saber que incomodo, me ampara de cair na mediocridade. Uma amiga certa feita me cuspiu uma sentença que me transtornou brevemente, referindo-se às mulheres. Disse que elas toleram outras mulheres bonitas e burras. Feias e inteligentes também. Segundo ela, para a maioria representacional do gênero, “mulheres bonitas e inteligentes não tem perdão”.

Vou além. O que incomoda o cerne da falta de existência é felicidade. Fato. Sempre fui muito íntima da tristeza, uma das melhores amigas de um artista. Construímos – eu e ela – uma relação sólida, miraculosamente baseada em completude. Uma trazia os desencantos, a outra transformava em cantos. Minha lealdade é tamanha, que adoraria ter mesmo feito ou passado – por pelo menos – metade das coisas que dizem por aí que vivi. Certamente minha escrita seria densamente mais interessante. Além de que eu entraria no livro dos recordes por ter superado os limites humanos de sobrevivência.

Suscitaria curiosidade e me faria vender livros. Isso sem mencionar o conteúdo ilimitado da minha biografia. Dariam roteiros de filmes a peças jamais representadas na esfera cinematográfica ou na história teatral. Também não hei de desmentir nada. Conhecem aquela velha história falem bem, falem mal? Se a frase clichê não existisse, eu a patentearia. Até porque se falam pelas minhas costas, significa que estou no lugar certo, na frente.

Ocorre que o inesperado me aconteceu. O pesadelo de qualquer poeta. O letargo de um artista. O fim do bom samba. Foi de repente, súbito, impensado, repentino. Me vi assim, admirando o jardim do vizinho que nunca tinha reparado. Vendo mais cores, encontrando sentimentos escondidos, caçando sonhos fujões. Sorrindo sozinha. Boba. Tola. Ridícula. Feliz.

Tenho dificuldade em lidar com isso. Por vezes me vejo desejando ter a minha tristeza de volta. Ou a minha revolta crônica, que permeia de sarcasmo meus textos. Sei que voltará qualquer dia desses, só não sei quando. Enquanto isso os “anônimos”, que certamente não se alfinetavam com uma garota triste, vão ter que continuar não suportando me ver assim, rindo à toa.

Entendo, eu mesma quase não suporto. Mas o que eu vou fazer? Garanto que tenho tentado! Tenho lido Lipovetsky e Nietzsche como nunca. Inclui no Ipod músicas que fariam qualquer “Emo” revirar o olhinhos. Revi varias vezes “Réquiem para um Sonho”, “As Horas”, “Dançando no Escuro”, dentre outros. Derramo algumas lágrimas discretas, esfrego o nariz e não dá 5 minutos estou sorrindo de novo.

Será que terei que apelar? Assistir a Globo? Freqüentar baladas? Comprar literatura de auto-ajuda pra ver até que ponto as coisas chegam? O problema é com a permanência da sensação: ela parece não perdurar. Não tenho culpa, aconteceu. A vida sorriu pra mim. Ou eu pra ela. Ou as duas coisas. Prometo que seguirei tentando, mas por hora estou estupidamente feliz. Desculpe decepcionar.

Atrás do escuro



Quem partiu a noite? Ou já será esse um costume nosso? Já está tarde e o sono deve estar fazendo amor com a tranqüilidade em cima de alguma nuvem insurgente. “Fica tranqüila”. Como se estar viva não fizesse mal algum pra quem padece. Ocorre que ainda não descobri como vou me inventar diante dessas importunas horas gagas à tua (quase) frente? Tudo isso pra não ter que encarar o destino de te amar ao lado da tua ausência, que piora quando escurece. Perco mesmo a fala, em fidelidade a mim mesma, entenda.

Não consigo morrer nas madrugadas porque são nelas que a vida chega. E as roupas todas espalhadas pelo chão fazem o melhor cenário da verdade tão perturbadora para os andantes vestidos. Estes que não entendem que minha alma tem índole obscena e opta por viver nua. Eu quem não deveria entendê-los, afinal, que alma precisa de vestes?

Nada em mim se faz mais ou menos. E nenhum de nós dois somos frutos ou serventes do acaso. Tenho medo do que faz sentido, mas prefiro continuar assim para me proteger da conveniência. De qualquer forma duvido muito que tu tenhas fôlego para enfrentar meus excessos, meus instintos, minha insônia, e especialmente minha clandestinidade. Prefiro crer que te preservo. E confia que o faço, a meu modo.

Não tenho código de barra, de gênero, de comportamento, é inútil me procurar em qualquer uma das inúmeras conjecturas mundanas. Mas tenho alma suficiente para alcançar o horizonte. Sei que com o passar dos dias esse miocárdio vai parar de me golpear no ritmo frenético em que se encontra neste exato momento. E sei que o vento vai levar com ele todos os lugares que teu cheiro me faz ir, mesmo que ele agora esteja por todos os cantos, mas desencantos são assim mesmo, fixados na minha pele.

Estou sim, cônscia dos pormenores. Estes pequenos detalhes. Quem mora atrás da cortina. Quem é artista sem platéia. Quem monologa ao telefone. Quem tanto almeja que se priva. Quem se esquece por tanto lembrar. Quem enxerga no escuro. Ah, e claro. Que o vento e eu, vamos para o mesmo lugar. Ele como eu, nunca verás. Mas sentirás quando viermos.

Mensagem de fim de ano




O texto a seguir desta vez não é meu. Uma excelência escrita por meu caríssimo amigo Gabito Nunes, do Caras Como Eu. Um neo-romântico, sem a falta de sal e pimenta de um Romeu shakespereano, mas sem os excessos da canalhice a la Nelson Rodrigues. Para quem não conhece o trabalho do escritor, permeado com uma malícia requintada, frases acrobáticas, maestria no verbo, pitadas de sarcasmo e pureza de sentido, vale a pena conferir.

Gabito é simultaneamente um colhedor e um artesão. Ele colhe as essências, os corações sufocados, a descrença, a dor, os amores em seu primeiro sopro, as paixões, as renúncias, os sentimentos ou a falta deles, as manifestações mundanas, as palavras possíveis e as não ditas como matéria prima, além de sua própria insustentável leveza de ser, e então confecciona escritos belíssimos. E apesar do nome de anjo, escreve como o diabo gosta. Por isso, claro, leio todo dia.
Segue:

FELIZ DESENCARGO DE CONSCIÊNCIA
" A mesma cena se repete quase o ano inteiro. De seis de janeiro a meados do Natal, tiro meu carro de ré da garagem, manobro, acelero em frente e cruzo com meu vizinho de porta. Aceno incerto com a cabeça num "e aí?" e ele age como se eu tivesse trazido o vírus Ebola para o bairro ou jogado sua filha pelada num fotolog.


Moro numa região nobre da cidade, apelidada jocosamente de "Beverly Hills". Onde os vizinhos não têm nome, onde os vizinhos cheiram free shop, onde os lares são doces, mas não irradiam laços nem desarranjos familiares. Aqui não tem churrasco na laje, não tem auê na rua, não tem dor de dente, não tem algodão doce, não tem Jorge Aragão a todo vapor, não tem criança jogando futebol com goleira de chinelo havaianas. Mas - uêba! - vai ter festa de Natal chefiada pelo vizinho fonofóbico. Pasme.


É a lei da recompensa. Debite sua frigidez e indiferença no mundo o ano todo e pague as contas do seu amor pagão no Natal, à vista, por desencargo de consciência. Instale luzinhas coloridas e ridiculosamente piscantes, ornamentos filiformes decorados com algodão em alusão à neve que miraculosamente rebentaria em temperatura veranista, e meiões megalo-patéticos onde um senhor de roupa vermelha e barba branquinha supostamente descarregará os presentes que não fizemos por merecer. Chamam de espírito lúdico, eu de esquizofrenia coletiva decorada com veadinhos.


A Broadway é aqui, onde todos tem uma peça super produzida a apresentar, sedentos pelos créditos, por desfilar em carro de bombeiros, disputando a tapa os figurinos de boca de palco. Pierrôs, Arlequins e Colombinas protagonizando grandes feitos. Enquanto isso, os pequenos gestos agonizam. A gente ama se odiando, à distância, trocando aqueles dois beijinhos "socialite" pra não borrar a maquiagem ou enganchar as máscaras cirúrgicas.


Ojerizo sim essa funçanata "dingobel", mande fazer uma placa de "anti-social". Penduro no pescoço com gosto, se "socializar-se" for dar um abraço anual, geralmente em dezembro, embalado por Vangelis ou Mariah Carey, ceando na mansão da tia Ilse, parabenizando canudos e anéis de formatura, cantando "adeus ano velho" bêbado, suado, com o cofrinho de fora. Feliz ano novo, tudo de novo.


Prometi nenhuma resolução este réveillon, mas abro uma exceção. Eu prometo gestos banais. Não fingir que não vi o braço amputado da tia que me vende capuccino, não fingir que minha avó não está mais viva, que desconheço a frustração sentimental da mãe do meu amigo, que não vejo o alcoolismo do meu colega, a cara suja de fome do piá indígena na sinaleira, que meus amigos narcóticos não são responsáveis pelo roubo do meu carro ou minha crônica falta de ar dentro do terno preto, feito sob medida para aparentar alguém que não sou. Meu pai me ensinou duas coisas nesta vida: 1. Não abra o vidro de pepino com faca; 2. "All You Need Is Love". E o filhodaputa estava certo. O resto é merda mal saneada.


Promessa feita, começo a atravessar velhinhas na faixa de segurança depois do Dia dos Reis, claro. Quando desmontarem essa parafernália que pisca e não cacifa um facho de luz pro fim do túnel. Não darei o gostinho de que esta "mini-reflexão-natalina" respingue iluminação artificial nas minhas boas ações. Só pra contrariar, coerentemente."

Depois deste texto, fico mais confortável pra desejar um feliz Natal e ano novo para todos. Pronto falei.