Atrás do escuro



Quem partiu a noite? Ou já será esse um costume nosso? Já está tarde e o sono deve estar fazendo amor com a tranqüilidade em cima de alguma nuvem insurgente. “Fica tranqüila”. Como se estar viva não fizesse mal algum pra quem padece. Ocorre que ainda não descobri como vou me inventar diante dessas importunas horas gagas à tua (quase) frente? Tudo isso pra não ter que encarar o destino de te amar ao lado da tua ausência, que piora quando escurece. Perco mesmo a fala, em fidelidade a mim mesma, entenda.

Não consigo morrer nas madrugadas porque são nelas que a vida chega. E as roupas todas espalhadas pelo chão fazem o melhor cenário da verdade tão perturbadora para os andantes vestidos. Estes que não entendem que minha alma tem índole obscena e opta por viver nua. Eu quem não deveria entendê-los, afinal, que alma precisa de vestes?

Nada em mim se faz mais ou menos. E nenhum de nós dois somos frutos ou serventes do acaso. Tenho medo do que faz sentido, mas prefiro continuar assim para me proteger da conveniência. De qualquer forma duvido muito que tu tenhas fôlego para enfrentar meus excessos, meus instintos, minha insônia, e especialmente minha clandestinidade. Prefiro crer que te preservo. E confia que o faço, a meu modo.

Não tenho código de barra, de gênero, de comportamento, é inútil me procurar em qualquer uma das inúmeras conjecturas mundanas. Mas tenho alma suficiente para alcançar o horizonte. Sei que com o passar dos dias esse miocárdio vai parar de me golpear no ritmo frenético em que se encontra neste exato momento. E sei que o vento vai levar com ele todos os lugares que teu cheiro me faz ir, mesmo que ele agora esteja por todos os cantos, mas desencantos são assim mesmo, fixados na minha pele.

Estou sim, cônscia dos pormenores. Estes pequenos detalhes. Quem mora atrás da cortina. Quem é artista sem platéia. Quem monologa ao telefone. Quem tanto almeja que se priva. Quem se esquece por tanto lembrar. Quem enxerga no escuro. Ah, e claro. Que o vento e eu, vamos para o mesmo lugar. Ele como eu, nunca verás. Mas sentirás quando viermos.

Mensagem de fim de ano




O texto a seguir desta vez não é meu. Uma excelência escrita por meu caríssimo amigo Gabito Nunes, do Caras Como Eu. Um neo-romântico, sem a falta de sal e pimenta de um Romeu shakespereano, mas sem os excessos da canalhice a la Nelson Rodrigues. Para quem não conhece o trabalho do escritor, permeado com uma malícia requintada, frases acrobáticas, maestria no verbo, pitadas de sarcasmo e pureza de sentido, vale a pena conferir.

Gabito é simultaneamente um colhedor e um artesão. Ele colhe as essências, os corações sufocados, a descrença, a dor, os amores em seu primeiro sopro, as paixões, as renúncias, os sentimentos ou a falta deles, as manifestações mundanas, as palavras possíveis e as não ditas como matéria prima, além de sua própria insustentável leveza de ser, e então confecciona escritos belíssimos. E apesar do nome de anjo, escreve como o diabo gosta. Por isso, claro, leio todo dia.
Segue:

FELIZ DESENCARGO DE CONSCIÊNCIA
" A mesma cena se repete quase o ano inteiro. De seis de janeiro a meados do Natal, tiro meu carro de ré da garagem, manobro, acelero em frente e cruzo com meu vizinho de porta. Aceno incerto com a cabeça num "e aí?" e ele age como se eu tivesse trazido o vírus Ebola para o bairro ou jogado sua filha pelada num fotolog.


Moro numa região nobre da cidade, apelidada jocosamente de "Beverly Hills". Onde os vizinhos não têm nome, onde os vizinhos cheiram free shop, onde os lares são doces, mas não irradiam laços nem desarranjos familiares. Aqui não tem churrasco na laje, não tem auê na rua, não tem dor de dente, não tem algodão doce, não tem Jorge Aragão a todo vapor, não tem criança jogando futebol com goleira de chinelo havaianas. Mas - uêba! - vai ter festa de Natal chefiada pelo vizinho fonofóbico. Pasme.


É a lei da recompensa. Debite sua frigidez e indiferença no mundo o ano todo e pague as contas do seu amor pagão no Natal, à vista, por desencargo de consciência. Instale luzinhas coloridas e ridiculosamente piscantes, ornamentos filiformes decorados com algodão em alusão à neve que miraculosamente rebentaria em temperatura veranista, e meiões megalo-patéticos onde um senhor de roupa vermelha e barba branquinha supostamente descarregará os presentes que não fizemos por merecer. Chamam de espírito lúdico, eu de esquizofrenia coletiva decorada com veadinhos.


A Broadway é aqui, onde todos tem uma peça super produzida a apresentar, sedentos pelos créditos, por desfilar em carro de bombeiros, disputando a tapa os figurinos de boca de palco. Pierrôs, Arlequins e Colombinas protagonizando grandes feitos. Enquanto isso, os pequenos gestos agonizam. A gente ama se odiando, à distância, trocando aqueles dois beijinhos "socialite" pra não borrar a maquiagem ou enganchar as máscaras cirúrgicas.


Ojerizo sim essa funçanata "dingobel", mande fazer uma placa de "anti-social". Penduro no pescoço com gosto, se "socializar-se" for dar um abraço anual, geralmente em dezembro, embalado por Vangelis ou Mariah Carey, ceando na mansão da tia Ilse, parabenizando canudos e anéis de formatura, cantando "adeus ano velho" bêbado, suado, com o cofrinho de fora. Feliz ano novo, tudo de novo.


Prometi nenhuma resolução este réveillon, mas abro uma exceção. Eu prometo gestos banais. Não fingir que não vi o braço amputado da tia que me vende capuccino, não fingir que minha avó não está mais viva, que desconheço a frustração sentimental da mãe do meu amigo, que não vejo o alcoolismo do meu colega, a cara suja de fome do piá indígena na sinaleira, que meus amigos narcóticos não são responsáveis pelo roubo do meu carro ou minha crônica falta de ar dentro do terno preto, feito sob medida para aparentar alguém que não sou. Meu pai me ensinou duas coisas nesta vida: 1. Não abra o vidro de pepino com faca; 2. "All You Need Is Love". E o filhodaputa estava certo. O resto é merda mal saneada.


Promessa feita, começo a atravessar velhinhas na faixa de segurança depois do Dia dos Reis, claro. Quando desmontarem essa parafernália que pisca e não cacifa um facho de luz pro fim do túnel. Não darei o gostinho de que esta "mini-reflexão-natalina" respingue iluminação artificial nas minhas boas ações. Só pra contrariar, coerentemente."

Depois deste texto, fico mais confortável pra desejar um feliz Natal e ano novo para todos. Pronto falei.

Talvez no tempo da delicadeza...




Acordei sem despertar naquele dia. Todas as pulsões chacinavam-se, esgotadas. Meus pensamentos espalhados por todos os cantos, como cigarras performáticas de um verão glacial. A princípio pétalas, mas ali o caule inóspito revestido de um silêncio mortal.

Quando caminho por entre as sombras dos teus aforismos, vejo que são tão ou mais desordenados do que os meus. Não fazes idéia. Reprimiria os anseios submetidos à ordem de infração, sob teu magnetismo indesviável. Até mesmo me soltaria sem bússola caso fosse, mesmo que sem pouso. Ainda que sem repouso. Faria.

Entendo os receios, mas quanto à confiança devo alertar que sou um contra-senso aos que duvidam. Aos que não crêem sou mesmo um paradoxo, um demônio de silfos vestindo asas barrocas. Para os que não se arriscam na exuberância da soltura, aceito que me culpem. Que assim seja e me poupem de seus desgostos.

Nós somos d’outra natureza. Teu espírito também foi tecido em lugar edênico e estamos atrelados pelo mesmo fio. As mesmas dores, a mesma angústia, que já cristalizam pelas frestas de virtudes. Os subsídios já estão todos forjados.

Quanto às pedras atiradas, não procuro lapsos de bondade em olhares alheios, por onde possa encontrar ciscos de reconhecimento vulgar. Nem mesmo desejo partilhar parte da culpa através dos julgamentos de outrem. Faço por inteiro e que a conseqüência seja cabalmente minha. Hei de seguir da mesma forma, sem margem, sem método, com amor irrestrito.

Manicômios são territórios em que espíritos ordinários de olhos vazios depositam almas inquietas como as nossas. Depois que morrermos, viraremos bons poetas. Pobres, mal sabem de onde viemos, por onde andamos. Fracos, desconhecem a guerra e a honra. Ignorantes dos ventos que nos fazem içar as velas, bebendo poesia no remanso das águas. Que assim seja a sentença e custo. Cada qual sabe da própria renúncia, mesmo que seja por inabilidade.

Ainda tenho erros por cometer, e não há como ser d’outro modo. Assino cada um com nome, sangue e digital. E após toda essa deselegância virá nosso tempo, onde te alcançarei subitamente, irreversivelmente. Quiçá na face imprevista da poesia que corre a galope,  abruptamente carregada pelo vento. Sem mágoa, sem volta. Por inteiro.

Rosas do cotidiano




Se por onde passo, arrasto.
No passo, no lastro, no riso
Fica sempre o espaço guardado
Esse que não é de ninguém
Esse que é do mundo inteiro

Lembranças sorrateiras
Visitam-me de madrugada
Sorrisos petrificados
Já me escorrem pela face
Sem garantia de memória futura

De lembranças, quero os olhos
Os mesmos olhares calados
Até que percebo que não são lembranças
Até que entendo que estão fixados

E descubro que desconheço o sossego
O silêncio é um grito contido
A claridade é a ausência de escuro

Continuo passando sem passeio
Continuo sentindo sem abrando
E se tento é atentado
O dano tem gosto de morte
A dívida, de vida inteira

O espinho da flor é abrigo
Mas fere sem justificativa
A lâmina do corpo é só tristeza
A lâmina no corpo, também



"Elephant Gun


If I was young, I'd flee this town
I'd bury my dreams underground
As did I, we drink to die, we drink tonight
Far from home, elephant gun
Let's take them down one by one
We'll lay it down, it's not been found, it's not around
Let the seasons begin - it rolls right on
Let the seasons begin - take the big king down
Let the seasons begin - it rolls right on
Let the seasons begin - take the big king down
And it rips through the silence of our camp at night
And it rips through the night
And it rips through the silence of our camp at night
And it rips through the silence, all that is left is all
That I hide"

Nos olhos de quem vê. No peito de quem sente.




As divagações prodigalizadas e a dissimulação no tom que permeava a prosa já estavam lhe incomodando há algum tempo. Haviam percorrido quase todos os assuntos. Ela, na verdade. Ele se sentia perseguindo-a por plantações de milho, onde escutava sua voz, sem precisar de onde vinha. O tom da argumentação desbotada parecia uma verdadeira arte em protagonizar o nada. Sem vida. Sem calor. Vazio. Não conseguia encontrá-la. Exclamou quase em súplica:

- Quando tu vais finalmente tirar essa roupa?


Disse, com o olhar mais intrusivo que ela podia se recordar, pelo meio da íris intrêmula.

- Como assim?
- Vai tirar ou vou ter que tirar pra você?

Ela não acreditava. Só poderia estar ouvindo errado. Avistava por detrás dele uma enorme vitrine de vidro, que separava o café em que estavam sentados da rua. Lá fora passos nervosos. Ali dentro lenços de papel secavam suores de testas distintas, e os últimos goles dos restos amargos de expresso, tomados em pé. Lá fora, luz-cinza do urbanismo diurno, cujo clarão lhe rasgava menos a córnea do que o par de olhos a sua frente.

- Não entendi o que você disse.
- Precisa que eu fale mais alto? Quando vai tirar essa roupa?

O tom era incisivo, alguns escutaram. A expressão no rosto dele, a levava para bem longe da feição trivial da garçonete que seguia esbarrando as ancas largas em seu cotovelo e para bem perto do açougueiro de confiança de seu pai, que cortava uma peça de costela com a fúria equivalente ao prazer de cada talhada.

- Enlouquecestes? Quem lhe dá o direito de falar assim comigo?
- Tu mesma, através das tuas insinuações!

Pasma, atordoada, ainda incrédula, sentia algo lhe correr no cerne para estalar no rosto. Justo ela, recatada como era? Justo ela, que jamais havia tomado a iniciativa frente ao interesse em um homem? Ela, se insinuando? Não, jamais. Ela, nunca. Já prestes a se levantar, ele tomou a frente da menção lhe impedindo a passagem com a mão, indo de encontro com a dela. Segurando-a, disse :

- Espere!

Embora um leve rastro de tenuidade na voz, o olhar era o mesmo. Fixo, indiscreto, quase um estuprador de suas pupilas. Ela, uma moça de existência. Haviam tantas e tantas da outra laia. Ela, que não se contentava apenas com o nome de batismo ou do que se resolvia batizar. Ela que prezava por respeito, intimidade, tudo o que não tinham. Ah não, ela não. Ela queria gritar. Lhe queimar o rosto jogando-lhe o capuccino pela metade.

- Não te deixo sair daqui sem uma resposta! Ainda não entendeu a pergunta?

Sentia tudo que pulsava ao mesmo tempo. O que continha, ali parecia acordar. As maçãs rubras da face denunciavam o misto de vergonha e revolta, sem saber qual das duas lhe tomava em maioria. Como um raio, tudo aquilo que nunca dissera antes lhe correu pelo tubo-digestivo. Não trancou, quando viu que chegara até a garganta.

- O que pensa que eu sou? Qualquer uma? Pensa que sou como essas mulheres com quem te envolves? Pensa que sou garota de uma noite? Que tu vais comer e cuspir fora, feito caroço de azeitona? Ah não, meu caro. Eu não. Nunca lhe dei a liberdade para falar dessa forma comigo. Nunca, está ouvindo? Vocês homens não prestam. Vem uma mulher e só pensam em uma única coisa: sexo. Nada mais que isso. Selvagens! Exijo que se desculpe, antes de me levantar daqui para nunca mais olhar na tua cara!

Ele permaneceu a sua frente, e voltou a tocar a mão dela, prontamente retirada. Uma curva entre os olhos dele, advinda da testa franzida, lhe completavam a feição. Desta vez, a perplexidade lhe embasava a retina. Alguns minutos de eternidade em silêncio. Sem desviar o olhar, lhe falou calmamente.

- Não estava me referindo a sexo. Perguntei quando tu vais tirar esta veste que usa para o resto do mundo, e se abrir comigo. Desde a primeira vez que eu te vi, quero te encontrar mas tu não deixas. Tem sempre uma palavra, um sorriso insincero, uma fala vazia na tua frente. Mas algo em ti insinua, algo que não sei quando abre, mas sei quando fecha. E esse algo me diz que tu precisa da pergunta para fazê-lo. Queria apenas poder te enxergar como és. Queria que pudesse te mostrar, como se nunca antes tivesse feito e te machucado. Queria poder te conhecer sem artifício, sem vestimenta, sem máscara. Este sou eu. Muito prazer.


...
...
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Relacionamento aberto. Topa?



Olha, meu bem. Nós temos que conversar. Sim, eu sei o quanto a gente se gosta em ordem sempre crescente, quanto nosso encontro tem o raríssimo poder de parar o tempo e tua presença, o surpreendente efeito de me trazer mais calma. Surpreendente é a palavra que define um bocado de coisas sobre ti. E isso é bem complicado nesse mundo de iguais.

Eu sei também que o mais natural agora seria considerar tua requisição de oficialidade e titular o cargo. Mesmo por uma questão prática, porque essas definições civis ou pré-civis não têm importância alguma para mim. Mas assim poderíamos abdicar do malabarismo de conceitos que o mundo parece exigir, ao referirmos um ao outro. “Quem é ele(a)?”. “Ah, minha... amiga.” “Rolo”. “Ficante”. Termos dolorosos estes. Meu namorado e/ou minha namorada. Fim de papo.

Um “porém” existe, no “entanto”. Para isso, teremos que fazer um contrato prévio. Realidade posta, devo confessar que tenho uma necessidade um tanto quanto inusitada, e não sei se tu vais aceitar. Sei que é diferente, meio moderninho ou mais velho que o mundo. Sei também que é preciso coragem além da conta para permitir isso. Entendo perfeitamente. Mas preciso te pedir, porque sem este detalhe não dá, espero que tu entendas também.

Além de te namorar, eu quero ter um caso com vários homens. E algumas mulheres. Pronto, falei. É bem isso, diretamente falando. Não tem como introduzir de outra forma. Mas não acaba por aí. Tem mais, e consiste na parte mais difícil. Não só eu quero que tu aceites meus casos “intraconjugais”, mas que tu mesmo me apresente a cada um. Isto porque tu já me apresentaste para alguns extremamente interessantes, e então penso que tu podes, além de ser meu namorado, ser uma excelente via de intermédio. Será que isto te soa muito estranho?

Eu quero ter um caso com menino que mora aí dentro. Esse que quando fica doente, corta o dedo, tem dor de cabeça, de barriga ou outra qualquer, fica completamente regressivo, assustado e manhoso, mesmo que jamais confesse, sempre jurando que realmente se sente pela hora da morte. Tenho um instinto materno para nutrir.

Quero ter um caso com teu lado feminino, que dá palpite nas minhas escolhas, indo das cores dos vestidos até as que podem mudar meu futuro. Que adora conversar, e tem sensibilidade para ouvir até o meu silêncio, indo além da competência pragmática. Pode ter o tal instinto materno também, porque muitas vezes o “menino dramático” sou eu.

Quero ter um caso com teu lado homem mais velho, que me ensina sobre a vida, que saiba coisas que eu não sei. Que critique a minha inconseqüência e impulsividade. Que me lembre que precocidade não é sinônimo de maturidade. Que ostente o prazer sem ressalvas, moralidades ou preconceitos.

Quero ter um caso teu lado adolescente, idealista, sonhador, inconformista, em constante transição. Esse que ainda não cansou porque esta apenas começando. Com um tanto de ingenuidade, um tanto de romance, mente agitada, corpo pulsante, sorriso escancarado, passo largo e peito aberto. Tenho uma inquietação crônica para dividir.

Quero ter um caso com teu lado artista, que como cegos e crianças, enxergam no escuro. Que faz milagres. Cuja própria retina incide em um portal entre o mundo dado pelos sentidos e consensos, tal como ele não é, e o mundo das estrelas distraídas, das cores essenciais, das verdades circundantes, dos verbos transcendentes, dos outros universos.

Quero ter um caso com teu lado feminista-pero-no-mucho. Contra os assédios execráveis pelas ruas, os preconceitos a respeito das capacidades intelectuais, filosóficas e políticas das mulheres, contra a condenação das saias, mercado de trabalho e divisão de tarefas, mas a favor das diferenças evidentes de gênero, sabendo que cabe ao homem assumir a direção numa viagem, as lâmpadas queimadas, e as latas de conserva.

Quero ter um caso com teu lado espontâneo, que dê risada quando não pode, que fala o que pensa mesmo se for qualquer bobagem, porque bobagem falada não é besteira. Esse lado que se arrisca, que petisca, que não ensaia, não faz pose, não sobe no palco, canta no chuveiro, me convida pra dançar na sala, se lambuza tomando sorvete, se declara em público, que não teme a exposição e acha que ridículo é seguir a regra e que estranho é parecer normal.

Quero ter um caso com teu lado homenzinho, que bebe cerveja com os amigos, xinga vendo futebol, acha que encontra o caminho sozinho, joga bola nas quintas, lasca o joelho, pede cuidado, não encontra objetos que estão a poucos palmos do nariz. Que me faz andar do lado de dentro da calçada, e faz de conta que presta atenção quando eu falo nos efeitos maravilhosos do último creme que comprei pra pele quando na verdade esta tentando pressagiar os possíveis placares dos jogos do Brasileirão, para ganhar o bolão de apostas entre os camaradas.

Quero ter um caso com teu lado tranqüilo, que encontra felicidade em balanço de rede, som de violão, fruta colhida do pé, ar gelado da serra, barulho das ondas, uivo de vento. Que faz amor sem pressa, beija sem intenção, que toca meu braço e põe meu cabelo atrás da orelha instintivamente quando eu conto do meu dia, que me diz que vai ficar tudo bem quando me abraça forte e me lembra que já estamos distantes de tudo.

Não quero que fechemos a nossa relação em conceitos ou exclusividades identitárias. Quero um relacionamento aberto. Se amor não for amor-livre o suficiente para que a gente possa ser, então vamos ter que chamar de outra coisa porque amor não é o nome disso. Em suma, eu quero todos. E todas. Quero conhecer teu inteiro e te apresentar o meu. Quero ter o teu inteiro, e poder te dar o meu. Topa?





* Foto de Ritinha, que apropriadamente também atende por Rita, Ana Rita, Babaloo e também se permite viver a pluralidade de si.



Caminho das Pedras



Sob a enorme pedra da palavra que encera um assunto, existe uma pluralidade de vocábulos, discursos, expressões, verbos, sujeitos e predicados esmagados. O diálogo empedrado referente consiste em: “Oi, tudo bem, o que andas fazendo?”. Geralmente é seguido por: “Oi, tudo e contigo? Ah, o de sempre, estudando, trabalhando”.

A pedra se chama cordialidade posterior. Ao que? Varia bastante. Não pretendo responder, então petrifico assim. Levantando-a porém, encontrarias a seguinte resposta:

Como tudo pode estar bem do jeito que as coisas estão? E mesmo que assim não estivessem, ainda teria fome no mundo. Então não está tudo bem, nem jamais estará, pelo menos no prazo que se estende do meu nascimento a minha morte, depois não sei.


Ando fazendo uma porção de coisas. Continuo pensando em ti todos os dias. Sinto tua falta um tanto. Reencontrei-te por um triz para desencontrar tão depressa, que tempo anti-horário foi esse? As vezes te procuro na memória, porque tem traços bem singelos do teu rosto que a ausência já me anda embaçando. Sabe como diz a música, “o esforço pra lembrar é a vontade de esquecer”.


Continuo fumando meus cigarros de cereja eventualmente, tentando comer bem regularmente, treinado assiduamente, lendo compulsivamente, arriscando inconsequentemente, sentindo exageradamente e trancando o choro que toda noite vem me visitar em forma de insônia.


Sigo tentando me convencer que o não teve inicio nem fim simplesmente não existiu, e sou tão quase boa na argumentação quanto na arte da negação. Permaneço inconformada com o esvaziamento da nossa geração, temendo muito me perder a ponto de me acostumar.


Continuo cantando todo dia, independente do meu humor, o que varia é letra de canção, O violão que sabe. Sigo escrevendo e estudando todos os dias. Tenho pintado e desenhado bem menos do que gostaria, inspiração nunca falta, o que falta é calma. E gosto de ter, para tal. De onde ela vem mesmo? Sim, voltei a escutar Los Hermanos infatigavelmente.


Ando com medo de uma porção de coisas. De ser cais que nunca recebe a chegada. De ser navio que nunca encontra o porto. Ou de continuar sendo oceano, que tanto abriga, mas tanto revolta. De ser “estanque, como quem constrói pontes e não anda”. A juventude passa tão rápido, e desde muito cedo sinto o desgosto de vê-la arrancada de mim. Nos últimos dias anda me assombrando ainda mais.


Minha alma continua tão ou mais inquieta como da última vez que nos vimos, minha mente idem. Meu coração anda aprendendo sobre reciclagem e desenvolvimento sustentável, mas continua com déficit de atenção. Sigo em forte crise existencial e minha intimidade casual com a filosofia tem piorado bastante o quadro.


Continuo lutando contra mim. E por vezes me vejo correndo atrás da cenoura, feito o burro de carga. Continuo levando tristeza nos olhos, aperto no peito, e por vezes me sinto insustentavelmente leve de tão pesada. Tão inundada que emudeço. Mas bem sei que o que fala meu silêncio é língua morta, quase ninguém traduz. Talvez ninguém mais além de ti.

Pactuemos então, e deixemos as pedras quietinhas. Tudo bem?

Homem de verdade!




Tem certas coisas que você nunca verá um homem de verdade fazendo, pensando, escolhendo, aceitando, sentindo, ou mesmo tentando por em prática qualquer uma das alternativas anteriores. Mesmo que constitucionalmente não exista um Código de Conduta oficial do homem de verdade, pergunte a qualquer machão sobre o comportamento e ele terá na ponta da língua frases começadas com “sempre”, “geralmente”, “quase nunca” ou “jamais”.


Por exemplo, homens e flores. Os de verdade tem uma relação intencional com as flores, que se resume em comer uma mulher. Então, utilizam do recurso abarrotando floriculturas, carregando discursos prontos e manjados para preencher um cartão cujo texto não vai distanciar dos adjetivos “linda”, “querida”, com  predicados como “adorei te conhecer”. Agora, plantar, admirar, fotografar, ter em casa, saber distinguir diferentes espécies de flores, “jamais”. Não é coisa de homem de verdade.


Tem certas coisas que um homem de verdade jamais aceitaria de uma mulher em um relacionamento. Que ela tenha registro virtual (orkut, msn), a não ser que mencione explicitamente que é comprometida. Vida social também não é bem vista. Algumas amigas igualmente comprometidas são admissíveis. Solteiras não são bem vindas. Amigos de sexo oposto, inaceitáveis. Sair sozinha, com a amiga comprometida para tomar um café no final da tarde, tolerável. A noite com as solteiras, jamais.


Ter opinião também. Porque escutar opinião de mulher? Sua mulher é a conquista que já prova que ele é o “cara”, ora. Aquelas que pensam muito já dão problema. O mais conveniente é que não sejam muito inteligentes, ou pelo menos, incapazes de calcular o QI deles com a facilidade com que fazem com calorias.


Sobre comportamento, tem certos mandamentos teóricos facilmente observáveis na prática. Por exemplo, a atratibilidade de uma mulher é definida pelo tamanho de seus membros inferiores, glândulas ou próteses mamárias. Todo par de pernas a mostra, decotes, ou roupas justas devem entrar em seu campo de visão, e toda mulher gostosa deve ser comida com os olhos (ou com outro membro), independentemente de estar ou não acompanhado ou comprometido. Largar cantadas pela rua, baladas, caçar na academia, na faculdade, até no supermercado, são perfeitamente habituais.


Negar fogo a qualquer mulher que queira lhe ceder o corpo é incabível, manda a lei dos homens de verdade. Em termos de sexo, preliminares existem automaticamente porque as revistas ensinam que fazem parte e macho de respeito tem que ser bom de cama (na fama principalmente, muito mais importante). Comedor. Pegador. Nada de muita trela, dormir abraçadinho, conversar depois da transa. Sentimentos em penetração? Impenetráveis.


A matemática é simples, regra de três: futebol, mulher e cerveja. Sendo ou não nessa ordem de importância. O que os homens de verdade encontram são mulheres de verdade, essa é a verdade da história. Quem? As tristes, as que usam sexualidade pensando em “garantia” de futuro, as muito inseguras ou de baixa auto-estima, as completamente passivas na relação e bastante ativas nas baladas, as que tem o tamanho do glúteo inversamente proporcional ao do cérebro, as que classificam o quanto um homem é interessante pela potência do motor de seus carros e renda mensal. Ah sim, e as desesperadas.


A verdade destes homens de “verdade” consiste em provar ao mundo sua própria virilidade. Filosoficamente, verdade é aquilo que se tem como realidade. Portanto, prefiro manter distância da amostra representacional e lamentavelmente real. Quero um homem “frouxo”, que se afrouxa das amarras de conduta, esses que se soltam. Que sentem, que gostam de filmes, livros, com assuntos e interesses mais nobres, que saibam conversar e escutar. Que não acham que passar segurança para uma mulher equivale a ter voz firme, ordem e falta de progresso. Os que choram. Que tem bíceps hipertrofiados de tanto remar contra a corrente.

Quero os que se arriscam ao ridículo. O ridículo de se apaixonar, de largar um “eu te amo” ao telefone na frente da turma do Bolinha. Os que fazem amor. Um original, sem limitações, desses que te deixam expelindo poesia pelos poros. Quero um homem fora da lei, contra-regra. Quero os rebeldes, os transgressivos, os inconformados, os que não se acostumam, os marginais do código geral.


Dispenso os que podem confundir minhas coxas com a de outras moças, e me mostrem toda dor. Quero os que encontraram ideologia pra viver, que descobriram o que é força, coragem e caráter de forma autodidata. Procuro aqueles que colocam em xeque a teoria darwiniana, trocando a suposta evolução por revolução. Que saibam se inventar e reinventar. Os homens de “verdade” eu passo, deixo para as mulheres de “verdade”. Ou da grande realidade, o que dá na mesma.

A hora da Partida





Fiz um pacto comigo. O de escrever este texto até o final sem chorar. Um desafio a tudo o que aqui dentro ofega, ergue, lembra, cursa, agita. Justo eu, que conheço tão de perto a partida. Essa sem ter planos e de poder voltar quando quero. Mas tem um problema sério, que se chama eco. Explico.

Uma das coisas mais tristes na vida, é encontrar alguém que te faz crer que existe um eco no mundo para tudo aquilo que te enlata o peito, te transborda pelas palavras por que nelas não cabe, te descolore de sonho em carga diária. A promessa de que há, mas não vem. Aquele quase, aquele perto, aquele um pouco antes, um pouco depois, você nem sabe mais onde no tempo. Aquela saudade imensa que fica de tudo o que não se viveu. Isso é uma das coisas mais tristes na vida.

No caso presente, o problema foi ter encontrado o eco ressonante, um irmão de existência, um bicho como tu, ter sentido o peito desentupindo, a palavra cheia e já desnecessária e a vida à cores de arte surrealista. A vivência de que há, de que veio. Aquele todo, aquele encontro, aquela hora exata, aquele além de tempo e espaço. E ele partir, para deixar aquela saudade absurda de tudo o que se queria continuar vivendo.

Mas isso é pequeno. Grande é tua existência ter feito marca na minha de forma tal que eternizastes a ti mesmo em mim. Grande é tua liberdade em ser do mundo, de voar alto, de desprender-se, de arriscar. Grande foi tudo que tu trouxestes e que vai ficar presente na tua ausência, sacramentado na minha vida e em tudo o que dela parte. O efeito se vê ao redor.

Poucos são os que sabem o que fazer com as próprias asas. A saudade é só um lado da mesma viagem, o mesmo trem que chega é o que parte. Obrigada por tudo! Meu mundo tu já marcastes, agora é o outro mundo que te aguarda. De qualquer forma, sempre esqueceremos do mundo quando nos encontrarmos, mesmo que por vias metafísicas. Vou acabar antes de quebrar meu pacto inicial comigo mesma.

Avesso




Depois da escuridão vem a luz. Mas a luz, como tudo, tem no mínimo duas faces. Ou clareia-te os passos, ou te cega inospitamente. Cabem aos roteiros de universos limitados o ato performático de bom ou mal. Vida real meu bem, ah, isso são alguns poucos minutos por dia. O resto é o que faz parte do script. Te tornastes o escarro aleatório da tua própria crença, e o que me parece desprezível é que te contentas em servir à isso, mesmo que – por motivos óbvios – tu negues.

Ah, se tu soubesses do que eu abdicaria ou renunciaria, caso pudesse, só para assistir florescer em tua face um sorriso mais calmo. Como foi que deixastes o mundo te corromper de tal forma que acreditastes que o que se vê é tudo o que é possível de ser visto? Quem conseguiu te convencer que o melhor cálice é aquele onde não se bebe? Se eu pudesse, alimentaria o que resta de fome nos teus olhos com ainda mais fome, para que nunca mais deixes de enxergar como deveria. Mas enterrastes minha onipotência com uma grande parte tua.

Veja como a cena se repete, insistentemente. Nascemos com tanta vida para padecermos cada vez mais, a cada dia. Tudo do avesso. Lembro-me das coisas mais formidáveis, as simples. Tuas mãos sempre em concha segurando a enorme xícara de chá enquanto o frio estourava ao lado de fora e nublava a janela álgida, com um olhar tão tenro que derretia as geleiras que eu trazia do mundo em mim. Esses mesmos olhos que me espiavam por detrás de algum livro, quando me via voltar pela noite, com as dores da rua, com poesias colhidas, com a arte lanhada, com a gradação dramática. Nunca precisamos de palavras.

Estes olhos eram a minha casa cheia. Eram estes olhos que me adentravam pelo peito, e me traziam de volta do anestesiamento, dos venenos, das pulsões de morte, e são a estes mesmos olhos que me remeto quando o chão se escapa dos meus pés, quando o mundo congela, quando a gravidade me esmaga. Sabes bem que entendo do escuro. Sabes bem que fui tão mais além, até do que pretendes ir. O que não sabes é que volto e te rastreio os passos. O que não sabes é que vou ao inferno quantas vezes for preciso, e que conheço mais atalhos que tu.

Enganas-te. Não pense que é coragem se jogar assim. Só se joga quem tem medo. Coragem é se desatar das amarras. De mim jamais terás a piedade que finges esperar. Eu desisto, no dia em que te olhar nos olhos e não mais te encontrar. Eu desisto quando a minha frente, avistar um par de olhos vazios, sem resgate. Nesse dia sim, o fim virá para mim também. Enquanto ainda ver história em teus olhos falantes, enquanto teu silêncio seguir em nada calando, enquanto escutar no eco do vento teu choro, não desisto. Te desafio a voltar. Te desafio a sentir. Te desafio a viver.

Esse monstro de olhos verdes...




Ah, querido. Funciona assim. A gente tem umas feridas primárias, dessas que, ou a gente vai limpar pra sarar, mostrando pro analista que as raspa com lamina afiada e joga álcool por cima, ou vai passar o resto da vida se relacionando a partir disso. Toda ferida aberta funciona como lembrete. E tudo o que se aproxima, já vira repulsa instantânea, defesa do corte que já se tinha. Não fostes tu quem o fizeste, mas remexes e me lembra que ele existe.

É querido. Mas é como o veneno homeopático que adentra na veia do braço exposto ao soro, e amarga-me os órgãos. É como um envolto negro a me abraçar, cegando-me os olhos. É o que desafia-me a razão e o juízo para lançar-me em queda livre no lado escuro do medo, da cólera, amnésica do bom senso por ter ultrapassado o portal do recurso primitivo. É quando meus seis pecados outros se revoltam e firmam guerra a tua cobiça.

Não querido. Eu sei que você me ama, me deseja, e não me trai. E sei que abordagens ou cortejos não lhe hesitam. Mas entenda. Eu preciso de mais, quero tudo, quero todos os olhares e desejos, quero tua ação solitária, exclusividade em teu pensar. Quero que todos os teus lados, como uma multidão formada e reunida em um só homem, a mim se voltem. Teu globo ocular carrega todos os olhos que desejo apoderar.

Sim querido. Sei que sou bela, e esperta, e formosa aos teus olhos. Entenda, não é problema de auto-estima. Ou é. Mas não de falta. É de excesso, querido. É algo que me enforca na pergunta “mas como”? Como não és em teu desejo mais secreto, inteiramente voltado ao meu ser? Como pode existir espaço para qualquer outra em tua imaginação que não eu? Como o corpo alheio te pode guiar os olhos em minha ausência? Eis o mal que me consome.

Não, querido. Não precisa ser real. Imaginário também. Pode ser a do filme, a da revista, a vizinha que todo garoto sempre quis ter, pode ser qualquer coisa que tenha seios, e glúteos, e panturrilhas, e belas pernas, menos de 1,80 de altura, voz feminina, rosto delicado, e pés pequenos. Eu entendo, querido. Eu sei que tu não queres outra, mas querido, eu quero todos os teus outros.

Eu vejo querido. Então, digamos que minha ferida é narcísica. Uma delas ao menos. Dor de filha mais velha que quer ser única em pelo menos uma coisa na vida. É corrosivo do meu próprio amor. Prefiro então minar a terra e secar o plantio a tempo de não ver brotar nosso jardim em terreno vizinho de outras flores. Deixo-me esquecer de tudo que me importa então, para que meu ego se proteja do aniquilamento, mesmo que nem para ele importe mais.


Querido?
...
Querido?
...

Onde estão teus olhos?


Dadaísmo ao Moralismo






Julgaram a saia, a moça, e as coxas, o Cristo e o Anti que é pai de todos. Todos por um, um por ninguém, mas a priori é ordinária. Comum mesmo é o mais barato. O vulgar custa caro. Eu espero não crer na descrença, que é de onde toda crença parte. Credito a palavra e o gesto, mesmo sabendo que não há crédito algum. Se espero já tenho esperança. E esperança é a corda que todo desesperado se agarra na última das circunstâncias.

Deixo passar, mas o que passa? E o que se passa? Eu me passo, sim eu sei. Mas nem sei nada, sabendo tudo. Se tem algo que o mundo fala é falácia! Se tem algo que eu não escuto é o que o mundo a fala. Mas de que mundo venho? Estou quase certa que eu não sou daqui. Mas se cá estou devo ter algo em comum com a priori ordinária, com o mais barato e com o vulgar, e deve vir desta conclusão a esperança.

Mas e a moça, e a maçã, e as coxas? Vão tão bem que não vão nada bem, é o que dizem por aí. Aí e lá, e lá ou acolá vem do além, lá de onde eu venho também. Então é tudo aqui. O fora é dentro, e o dentro é fora. Um quadro cíclico. Círculos enganam bem. Por isso o mundo é redondo. É cada um no seu quadrado, não é? Mas e os seios, e as fogueiras, e as bruxas, e os desejos?

Quem são eles? Que homens são tão homens? Que mulheres são tão mulheres? Demasiadamente humanos? São tantas perguntas erradas, de respostas certas. São tantas perguntas certas, de respostas erradas. Quem vive de sedução é a fruta podre que caiu da árvore, e tenta convencer o colhedor de que é melhor que a do topo, ele finge que acredita e come. Os livros evolucionistas nada evoluem. Existe um mundo além da reprodução e da sobrevivência. Com tanta hipocrisia, em que saia-justa nos metemos.

Cansaço é o que resta quando a esperança falha. Cansei de ter esperança. E agora, como faz? Faço certo pelo errado, o vento trás a direção. É o que ouço pelos cantos, que descubro nesses tantos desencantos. O que mais confio é na desconfiança que sempre tive. Anti é aquilo que se prega na moral. Cristo!

Metamorfose





Não sei dizer exatamente como foi. Sei que não foi de um dia para o outro também, disso tenho certeza, devido à complexidade e grandeza da questão. Acontece que parei de juntar meus cacos. Parei simplesmente. Percebi que aqueles cacos que tanto me empenhava em juntar remontariam uma sósia assustadoramente remendada do que eu já fui.

Cansei também da auto-piedade, a gente tem tanto dó da gente mesmo que chega a chorar, um absurdo. Desisti de remoer a busca imóvel por tudo aquilo que estava em algum lugar que eu nunca tive acesso, mas que por saber que existia, perdia todo o tempo do mundo procurando. É preciso desistir de certas coisas, para não desistir de si mesmo.

E era preciso abrir mão de quase tudo o que eu acreditava sobre mim. E fazê-lo sem referência alguma já é o retrato do desamparo. Se não tinha referência nem em mim mesma, partiria de onde? Que assim seja, invento o novo. Se seria uma grande mentira ou não, já não importava mais. A verdade em si não deixa de ser uma questão de fé. Grande parte da verdade sobre algo ou alguém existe porque alguém crê, a existência sem crença torna o reconhecimento da verdade inacessível.

“Um troço qualquer morreu”. Sem direito a ressurreição, reencarnação, ou reclamação. Se isso se perdeu no passado, não existe. Mas falo de mim aqui, ao contrário do Cazuza que velava o “entre”. Se o que fui estava morto, o que me restou foi perceber que estava viva. Tinha o dever de construir uma nova obra de mim mesma. Teria que me reinventar. Criar mesmo. Se não sou do tipo que faz releituras ou réplicas de obras, seria contraditório fazer isso comigo.

Onipotência a minha? Ora, se eu não me governar, nem de Deus mereço respeito. Defina-me. Decifra-me. Já devorei todos que tentaram. Cansei. Voltei a questão a mim, e tentei também. Acabei por me consumir. Mas não é essa a beleza afinal? A possibilidade de ser ou não ser? Já não sou mais tão criança a ponto de ser porque sou e pronto. E não sou tão adulta a ponto de ser pra receber em troca.

Já posso ser o que eu quero e manter a minha palavra. Ser fiel a si mesmo já é mudar o mundo.

Sorte no jogo?





Os dois eram tão ou mais espertos. Se encontraram por um presente daquilo que, por não se saber o nome, chamamos acaso. Ele um romântico disfarçado de canalha para não parecer otário, ela uma romântica disfarçada de realista, para não parecer ingênua. Cruzaram olhares, palavras e gestos, depois telefones, línguas e sonhos, esses últimos é claro, cada um pra si.

Tinham várias coisas em comum, dentre elas, a juventude, um histórico de desilusões, o medo de serem feitos de idiotas, e o bem-querer um pelo outro. Ela era bela, dessas belezas bem raras, com capacidade de iluminar o vazio escuro de uma balada vulgar. Ele guardava relíquias no peito e nos poros, e possuía um ar de tristeza boêmia onde qualquer bom espectador poderia colher de suas pegadas o rastro de poesia deixada para trás, em cada passo.

Ele se acostumou a fazer sexo seguro, sem risco de afetividade. Ela, a negar fazê-lo. Nenhum dos dois virou robô da juventude esvaziada, mesmo que resguardada e protegida ambos ainda carregavam a verdadeira existência no íntimo. Mas não, nenhum daria o braço a torcer. Mulheres gostam de homens que não lhe encham o ego. Homens gostam das mulheres difíceis. Ambos eram convictos de que pertenciam a planetas distintos, Marte e Vênus precisamente, guerra nas estrelas.

Então ele não ligou no dia seguinte. Prometeu que ligaria, mas esperou até o sétimo, numa estratégia bíblica de construção de mundo. No primeiro dia, o nascimento da interrogação. No segundo, o palpite das amigas. No terceiro a busca por defeitos próprios. No quarto, pelos dele. No quinto a lembrança de tudo que não é, e por isso já é triste. No sexto a desesperança. E no sétimo então, nada descansado, ele liga.

Ah não, mas claro que ela não atende. Afinal de contas, ela não é fácil, não é qualquer uma, ela é ocupada, ele não é o único que a deseja, ela tem vida, a artimanha falhou. Ele tenta de novo, e ela com o celular na mão como se fosse coração, deixa que pulse. Trim-trim, tum-tum. Nem aí. Agora ele vai ver o que é bom. E agora ela vai ver que não sou um idiota qualquer.

Ambos pediam para não caírem na tentação do mundo online. Como é difícil manter o falso desinteresse quanto a tela grita acessibilidade à vida alheia. Maldita era da comunicação quando a proposta é não se comunicar. Ele não visitava o orkut dela, para que seu nome não ficasse gravado. Ela visitava o dele, depois de ter trocado a configuração de visitas. Ele entrava no MSN, e o coração dela saltava aos olhos. Bastava ela entrar para que ele sentisse lhe congelar o sangue. Mas nenhum seria louco ou tolo o bastante para ofertar a primeira palavra.

Quando encontravam uma desculpa ajustada para que o descaso não corresse valo abaixo, ela se preocupava em opinar de forma inteligente usando chavões teóricos, ele, em desfazer suas opiniões. Concorriam em quem via mais filmes cults, lia mais ou menos Platão, ia mais ao teatro, entendia de arte Renascentista, ou sabia sobre o lado B dos grandes gênios da literatura. Ela se perguntava se a analogia dele sobre os pré-socráticos falava algo sobre ela. Ele tentava juntar os quadradinhos da ultima imagem de Picasso que recebera por e-mail, na busca por alguma via estética de dizer que ela o queria.

Sempre que ele ligava, o celular dela estava fora da área de cobertura ou temporariamente desligado. Ele nunca podia falar naquele momento, e perguntava se não poderia telefonar depois, coisa que jamais faria no mesmo dia. A despeito do inexistente acaso inicial, seguiam forjando desencontros intencionais. Tudo em nome do jogo. Passaram-se meses de silêncios forçados, desinteresses fingidos, descasos maquinados. Passou do ponto. “Não era pra ser”, ele disse. “O que é meu está guardado”, ela pensou. Nunca ficaram juntos. Eram bons jogadores, e quem tem sorte no jogo paga o preço do azar naquilo pelo quê se joga. Ou no único saldo que valeria, no fim das contas. Eu canso de ver tanto amor jogado fora.

Entre crianças e filósofos




Eu preferia morrer à perder a curiosidade infante-filosófica-nata, e viver “sobrevivendo” em conformismo apenas. Lembro-me de quando meu pai me explicou frações matemáticas com pizzas. Até então, elas pareciam ininteligíveis. Ele pegou a pizza, cortou em 6, pegou uma, deu uma mordida e apontando para o pedaço de pizza ainda de boca-cheia, sentenciou: “eis um sexto”. Ah, era isso?

Não lembro minha idade exata, menos de uma década de vida, com certeza. Lembro de ter matutado na minha mente juvenil: “a matemática nada mais é do que uma forma de representação do mundo”. Conforme os cálculos se complexificavam, minhas perguntas iam seguindo as leis da multiplicação, incluindo ai indagações acerca das próprias limitações matemáticas. Desde aquela época, já existiam as crianças que decoravam as regras ensinadas, aplicavam-nas em provas e tiravam boas notas, e a esse processo se resumiam suas respostas e suas verdades.

E existiam as crianças, comigo inclusa, que faziam perguntas imbecis tais como “porque não é possível calcular um sentimento?”, ou que procuravam descobrir como fazer uma conta matemática por caminhos distintos, chegando ao mesmo resultado. O problema era que às vezes me perdia nas provas brincando disso, e depois de algumas delas tive que – pelo menos nas avaliações - me contentar em seguir o caminho chato, perigando repetir o ano.

Hoje analisando a cena, vejo o significado filosófico daquela curiosidade ainda instintiva, que toda criança tem. A matemática é uma representação, em signos, do mundo. Os números que compõem a matemática, são símbolos de tudo que é quantificável, e na matéria isso se torna prontamente observável. A matéria em si é dinâmica, sem a necessidade de intenção. Mesmo que sigam as leis da Física, fenômenos naturais ocorrem sem necessidade intencional, o que nos leva a concluir que a matéria é dinâmica por si mesma. Todo fenômeno físico pode ser convertido em números e explicado matematicamente. Se a matéria é dinâmica, ela nem sempre segue o mesmo caminho, linear, passo a passo, para o mesmo fenômeno. Porque então matemática deveria?

A história complica bastante se pensarmos na Ciência atual. As ciências em geral são todas filhas da Filosofia. O progresso da Ciência, nada mais é, do que respostas às perguntas daqueles que ainda fazem perguntas, com o perdão do pleonasmo. Mas e quanto àquilo que não é passível de quantificação? Aquela minha inocente pergunta “imbecil” era um raciocínio que fugia da lógica formal. Mas ainda vivemos a dialética marxista, e quando não, somos tão cartesianos que fragmentamos o sujeito em corpo e mente, e só nesses dois hemisférios encontramos um sem-fim de especializações, cujas tentativas são tão limitadas quanto nosso vão conhecimento.

Você tem problema de visão e comenta isso com um amigo médico. Só que seu amigo é gastrologista. Ele lhe encaminhará a um oculista. Você vai ao oculista, e ele descobre que seu problema existe devido a diabetes e assim você sai de lá com indicação a um nutricionista e um endocrinologista, no mínimo. Vai cansar de esperar sentado na salinha de espera como é de costume, até sentir dor na coluna, e será encaminhado para um fisioterapeuta. Chegando neste, vai ter um chilique porque ninguém parece poder lhe ajudar em seu problema, e ele lhe indicará um psicólogo. Você vai até o psicólogo, já com um nível de estresse tão grande que começa a sentir fortes dores no estômago, desconfia de uma úlcera e comenta com o psicólogo. Ele vai te mandar para um gastrologista, e então você vai bater na porta do seu amigo do inicio da história, e lhe perguntar qual é afinal, a finalidade das ciências da saúde? “A própria saúde ué”, ele provavelmente vai lhe responder escrevendo sua receita de remédio pra úlcera e achando que você é um “tapado” completo. Behavioristas, expliquem como funciona o condicionamento. Sim, espeto vocês também.

Vejam as “descobertas” dos gênios da história. São óbvias, vide a gravidade por Newton, através da simples queda de uma maça da macieira. Mas só se tornam “óbvias” depois de terem sido constatadas. E apenas o foram, porque alguém arriscou sair da lógica comum, e lançar aquela perguntinha que toda criança faz o tempo todo: por quê?

Já conversaram com alguma pessoa absolutamente convicta de algo? Vejam como as certezas são frágeis, a ponto de serem defendidas com unhas e dentes. Não existe estupidez maior do que atrelar-se as próprias verdades, se contentar com as realidades que lhe foram apresentadas, e cessar as indagações na primeira resposta que vier ou na própria conclusão empírica. Sábios são os que se consideram aprendizes, que perguntam e escutam. Medíocres já têm quase todas respostas. Mas estão entre os convictos os portadores da maior ignorância.

Bem-casados



Se Shakespeare estivesse vivo e assistisse a entrada de uma noiva em uma cerimônia de casamento atual, provavelmente puxaria um bloquinho durante o sermão do padre e passaria o tempo descrevendo-a com a mesma fibra de tempos remotos. Eis que esplendorosa, trajada do brilho lácteo e brancas sedas, pelas portas adentra em direção ao altar. Sob o olhar furtivo das donzelas, admirado dos cavalheiros, e hipnotizado dos querubins, flutua distribuindo em lampejas púrpuras o sorriso cintilado em marfim e quimeras de encantos de fadas.

A cerimônia de casamento é bela. Estive recentemente em uma e algumas coisas são rotineiramente observáveis. Reitero que aqui me refiro aos casamentos “moderninhos”, desses que se casam por amor, visto que aqueles a “moda antiga” ainda existem as pencas. Dentre a turma high-tech, toda noiva em dia de casamento é bonita. Todo noivo sua o colarinho de nervoso, no momento prévio ao altar. Toda noiva entra triunfal na Igreja, e todas elas tem um sorriso tão gracioso e aberto, hora com covinhas abaixo do brilho dos olhos, hora com a meiguice das bochechas rosadas, os cílios curvados, e o coração entregue.

Todo o noivo desfaz-se da tensão e da testa enrugada, ainda atordoado de tanto ter andado em círculos ante os convidados na espera, abrindo em reflexo o mesmo sorriso puro ao vê-la, dividido entre o menino impaciente que aguarda o dia de Natal para abrir seus presentes, e homem que espera tão mais impaciente pela hora de reafirmar seu amor à mulher de sua vida. E frente a estes dois, a única coisa possível a se desejar no íntimo, é que sejam felizes.

Eis que então por praxe cerimonial, chega a parte do juramento. A jura, todos sabem, vale até que o silêncio, ou o tédio, ou as crises existenciais, ou a própria convivência, ou tudo isso junto, os separem. O que é a própria morte. Não da vida, mas da relação. O artifício do juramento, no entanto, me incomoda tal como me incomoda toda e qualquer fala ensaiada, não espontânea. Mas esta em especial, não apenas inclui a categoria, como está incompleta, deveria ser repensada e reescrita.

O problema está em seguir a tradição. Ligadas ao valor da propriedade, à conquista das terras e aos acordos políticos entre a nobreza, o casamento era essencialmente um ato de aquisição, moda que teve inicio marcado na Roma antiga. Confundir casamento como conquista de vida é uma armadilha. Eu me formei, plantei uma árvore, fiz algum bem ao mundo, consegui uma colocação melhor no meu emprego, e me casei. Seguir conquistando, em movimento contínuo é o que demanda a sobrevivência da união de escovas de dentes. Frente a isso, talvez outros pormenores deveriam ser indagados ao noivos.

Primeiramente, se concordam em jamais terem neste dia um marco de garantia da presença do outro, retirando-lhes da responsabilidade de seguir conquistando seu parceiro dia após dia, sempre tendo em mente que nos tornamos eternamente responsáveis por aquilo ou aqueles que cultivamos. Aceitam? Também poderia estar incluso se concordam em respeitar o silêncio quando é preciso, assim como a liberdade e individualidade com a mesma importância que possuíam antes deste dia, mantendo independência um do outro, cultivando interesses, amizades, sonhos, aspirações e espaços próprios. Sim ou não? 

Acrescentaria ainda se ambos concordam em se esforçar para serem “artistas no próprio convívio”, trazendo um pouco de poesia para a vida escrita em tom de noticiário, um pouco de melodia para o tumulto das cidades, um pouco de luz para o escuro das noites, um pouco de luar para o meio dos dias. Se pretendem dar menor importância paras as toalhas molhadas sob a cama e os sapatos espalhados pelo chão e maior  para a singeleza dos pequenos atos, como a janta sobre a mesa, massagem no pé, cerveja no gelo, embalo de rede, cafuné antes de dormir, e bilhetinhos na geladeira. Ainda somaria jamais dormirem de costas com raiva um do outro, deixando que as discórdias se acumulem por preguiça de discutir a relação, e exercitando arduamente a compreensão, o companheirismo, a fala, a escuta, os beijos e abraços. De acordo?

Estes são pressupostos básicos de convívio entre um casal, mas a verdade é que não existe receita pronta, como a dos “bem-casados” que a gente leva de lembrança. São tantas outras milhares de coisas que compõem um casamento, seja ele na Igreja, seja em resolver dividir o guarda-roupas sem maiores cerimônias, que poderíamos entendê-lo como construção. Cabe ao casal, em nome do próprio amor, encontrar a rima, a prosa, e o verso frente a uma nova biografia, escrita ou reescrita a quatro mãos. Aos noivos, uma feliz inspiração.

Nua e Crua





“Enfim só.” Disse para mim mesma, ao chegar em casa à noite depois da aula, largar a bolsa em cima do sofá, me desfazer do salto e descer do pedestal. O ato de arrancar a roupa e entrar no banho chega a ser agressivo neste momento. É ali, no banho do fim do dia que a vida começa. Banho é simbólico. Começa no ato de despir-se, desfazer-se das vestes que elegemos a partir do código de civilidade. Se não existissem outros, não nos vestiríamos (no conceito objetivo ou subjetivo da palavra).

Noutro termo, ali posso relaxar ao ponto de ser mulher. Posso desconstruir, criar, cantar conforme a minha música. Posso ter todos os respingos de euforia e outros tantos de mágoa. Posso ter um arsenal desnecessário (mas fundamental) de hidrantes, cremes, shampoos e sabonetes de estrelinhas que se liquefazem em contato com a água e toalhas com cheiro de jasmim. Não preciso dirigir bem, não preciso provar que minhas coxas não invalidam meu cérebro, nem disfarçar que eu acho o caminho sozinha, nem que eu sou mais esperta, ou mais rápida, ou menos mole. Posso ser feliz sem justificativas. Posso ser triste sem fingir na hora de rir.

Isso aqui é “vida real”, penso. O que quero pra vida ainda não esta pronto para mulheres. No mundo, mulher tem que ter colhões, e o resto é falácia feminista. O dia em que deixarmos de queimar sutiã para fixar a morada no território que ansiamos possuir, eu mudo de idéia. O dia em que pararmos de receber adjetivos e abordagens execráveis pelas ruas, qual se fossemos reprodutoras potenciais desfilando pela selva, eu repenso. No dia em que pararmos de comemorar um dia da mulher e nossos sabonetes de estrelinhas, seios, glúteos e lombares não anularem no espectro alheio nossas competências intelectuais, talvez tenhamos algum progresso. Por enquanto, tem que ser macho mesmo.

Fingimos o dia inteiro, ambos os sexos. Olhe em volta, olhe no espelho. Por que nos olhamos no espelho diariamente? O que adotamos como recurso de traje, trejeito ou tragédia nada fala sobre quem somos, mas sobre quem queremos que os outros pensem que somos. E usamos para cada situação diferente uma identidade de cima desse palco chamado “vida lá fora”, que nada mais é do que uma peça sem diretriz, mal escrita, composta por uma platéia recriminadora e baldia chamada sociedade.

Mas vai fazer análise. Cai a máscara de gênero, de estado civil, RG, profissional, de boa mãe, de bom samaritano, cai a pose mesmo. E o pior: nem mais se atrelar em racionalidade defensiva se pode, tem que sentir a coisa a fórceps. O que resta? Tem que ter tanto peito pra encarar o que resta, que eu preciso da minha analista ali segurando a minha mão. Progresso, porque já admito que precise segurar a mão de alguém (por favor, isso é uma metáfora). Com a persona escoradinha ali ao lado do divã, pra qualquer coisa, só por garantia.

“É preciso coragem para ser você mesma”, me diz meu amigo Gabito. Porra, e como! Tem máscaras que de tão acopladas à face já moldaram-se aos nossos rostos. Essas tão seguras, tão mais fáceis, tão conhecidas, essas que carregam um pedaço da epiderme quando arrancadas. E tem que ser assim, violentamente. Tem que querer, fazer, e ser, violentamente. O mundo pertence aos que se arriscam.

Mas deve se estar preparado para que, ainda em carne viva, as pedras da “exposição” caiam às pencas em vossos telhados. Dá licença? É proibido chorar em ambientes fechados? É proibido sentir ou só assumir que se sente? Quando viveremos a espontaneidade no prestígio da palavra? Quando a hipocrisia moral dará lugar a ética? Quando seremos livres o bastante para sermos, e pronto? E quem você pensa que é afinal? Acha que engana alguém?

A noite de Eros






Pela forma como um homem pode contornar o corpo de uma mulher sem nem ao menos tocá-la. Através do olhar do desejo precoce e tardio, sedento por consagrar a exploração de sua essência feminina, ao inspirá-la e absorve-la em pele, deitada sobre os cúmplices lençóis de um quarto.

Sob domínio desse olhar sem fala, mas rico em todas as sentenças, sacramentado como a promessa de devoção ao deleite compartilhado, todos os átomos que compõem o corpo de uma mulher se abrem.

Sob ordem da luxúria, ela se oferta à posse que polariza entre rijeza e suavidade. Esta que lhe rastreia segredos, irrigado em provocações majestosas como a sugestão dos céus aos dotados de asas.

Sua silhueta agora é pulsão em feitio, delineada e moldada por ele, enquanto renasce de sua própria entrega. A entrega a este, que ela quer consumir a cada gota de suor, lhe confiando toda exclamação em vibrato, lhe revelando cobiça em melodia ao pé do ouvido, entre volições da fricção contra a pele tenra, da aspereza da barba não feita contra a delicadeza da face.

E ele a contempla, em toda singeleza, em cada detalhe, por anseio violento em querer vir. Assim, ele a toma. A partir de então o corpo dele é sua nova casa, a alma dele seu novo endereço, polarizado enquanto ela se perde na própria moradia. Até que em ápice, na ebulição dos sentidos e sentimentos, ela vê brotar na flor da própria pele a explosão do fastígio, lhe vestindo o nu de prazer e pétalas, a todo e cada canto de espírito.
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Não desceu. Está aqui, até agora entalado. Só pode ser porque é verdade. Mania mais intolerável essa minha de ter nove motivos para sorrir, e me atrelar ao décimo, o da lágrima. O que me faz lembrar que os momentos em que sou feliz são os que, por algum motivo mais forte, eu esqueço que sou triste.

Obrigada por ter ruído meu dia. E obrigada por ter me feito sentir, mais uma vez. Bastou aquilo, para que eu desmanchasse meu sorriso e virasse mortal de novo, a ponto de achar alívio nessa condição. Teu par de olhos verde-cinza desesperançados pela janela só puxaram a tampa do meu ralo. E veio o esgoto.

Só um vidro dividia teus olhos dos meus. Um vidro fino, que dividia universos. E ares. O meu, condicionado, o teu denso, bem mais pesado do que você. Não, não tenho trocado. Mas tu tinhas, e trocastes comigo apenas pelo olhar. E nem mesmo tesouros escondidos por mares jamais navegados pagariam o preço. Mas como não sabes ler, seguirás tendo a minha falta de trocado como mais um olhar indiferente, mais um carro que se vai, mais um pouco do mundo que te rouba. Te rouba de decência, te rouba o que tu não tens, nem nunca teve, e me mata também um pouco imaginar que talvez nunca terás.

Se eu falasse o que quer que seja, eu bem sei que só se ouve a parte do “não” quando se tem fome. Só se guarda a cena do carro indo embora quando a solidão coloca a existência no lugar do crime. Que só se consegue enxergar aquele vidro quando se pensa em sonhar. Temos isso em comum. Com a diferença de que eu sinto o peso do real podendo comparar com a ausência dele, e você não. Tão triste, que chega a ser mais triste do que eu. Então calei. E chorei, minha criança.

...
...
...

And the Oscar goes to...




Só porque teu alto nível de convencimento te induz à deduções distorcidamente conclusivas, isto não significa que elas estejam de acordo com a verdade. Aliás, se existisse uma escala valorativa em grau de “se-achismo”, tua pontuação estaria elevada a ponto de te garantir uma estatueta na cerimônia de pessoa mais convencida do ano.

Resolvi que vou desfazer essa tua conclusão errônea de que estou apaixonada por ti. E decidi escrever antes que tu me exijas argumentos de corpo presente. Isso porque se eu te falar pessoalmente, no mínimo de tempo que o Sistema Nervoso Central do meu encéfalo leva para fazer com que meus lábios, pulmões e cordas vocais trabalhem conjuntamente, traduzindo meu pensamento pela emissão de sons em forma de linguagem, tu dirás que eu demorei na resposta. E caso eu não ache de imediato uma ou outra palavra, tu dirás que eu gaguejei, o que (para ti) confirmará esta tua afirmação infundada!

Pois bem. Não é porque de uma hora para outra eu descobri que existem mais de 63 tonalidades diferentes de cores no trajeto São Leopoldo/Novo Hamburgo, e tenha me surpreendido comigo mesma contando cores de caminhos que, em geral, eu nunca tinha prestado atenção, que eu esteja apaixonada por ti. Isso pode ser apenas tédio, sabia?

Não é porque toda santa letra de canção, me faz lembrar de alguma parte de ti em sua estrofe, pausa, vírgula, verso ou rima. Nem porque toda vez que eu tenha cantado, pensado em escrever ou gravar alguma canção nos últimos tempos, onde teu nome insista em aparecer sugestivamente como título que eu esteja apaixonada por ti. Eu posso apenas ter apreço por música brega. Escutou?

Se eu fico te perguntando o que tu tem a cada silêncio ou tentando interpretar qual será a decodificação de um suposto sentido oculto nas palavras “alô”, “olá”, “oi” ou “sou eu”, que tu insistes em emitir de forma variada cada vez ao telefone (porque raios tu não opta por uma só maneira de cumprimento de uma vez por todas?), que eu esteja apaixonada por ti. Eu posso apenas ter TOC ou ser paranóide! Capiche?

Muito menos é porque o teu toque, a sensação da tua pele de encontro com a minha, ou teu cheiro, ou teu sorriso, ou teu abraço, ou teu beijo, ou qualquer coisa que tu faças que me passem pelos sentidos, seja me entorpecendo ou me aguçando os mesmos, me fazendo entender finalmente o porque toda alma precisa ter um corpo, que eu esteja apaixonada por ti, eu posso apenas ser uma pessoa fixada na busca pelo conhecimento e centrada demais na questão filosófica clássica mente-corpo. Pegou?

Também não é porque tu virou uma espécie de parâmetro masculino, que dividiu o universo do outro gênero entre os menos que tu, os perto de ti, e os lamentavelmente abaixo de ti. Isso definitivamente, não tem nada a ver com estar apaixonada. E nem é porque tu estas acima do bem e do mal, isso nem é grande mérito, se tu parar pra pensar no tanto que tem de babaca no mundo.

E indo além, também não é porque tua ausência me faz sentir um vazio físico, como se fosse fome, só que mais pra cima e mais pra esquerda, nem porque tua presença me faz esquecer que existe fome no planeta, ou qualquer outra coisa que não sejam teus olhos, tua boca, tua respiração. Muito menos é pela forma como tu me desfaz, me abre, me arranca desse inferno gelado que eu me enfio as vezes com tanta intensidade que me derrete, que eu esteja apaixonada por ti! Ta me ouvindo?

Eu poderia seguir uma lista argumentativa sem fim aqui, mas acho que já te apresentei afirmações perfeitamente ponderáveis para te provar que nada disso significa paixão. Eu não estou apaixonada por ti! Ficou claro? Hein?

E agora passa esse Oscar pra cá!

Adulterados




Não posso nem descrever o quanto essa guria me irrita. Mas que criaturinha mais metida! Esconde-se atrás de tanta vaidade toda sua insegurança. Além de ser arrogante, presunçosa e mais nariz empinado do que.... Do que... Do que.... (pera que vou procurar no google um bom complemento de expressão popular pra isso. Xiii, não tem...) ahm... er... tá bem, do que eu!

Já pararam pra pensar que na imensa maioria dos casos em que implicamos com alguém sem um motivo aparente, estamos apenas projetando nossas próprias desaprovações? O outro-espelho, o outro depositário daquilo que sou e não queria ser, o outro meu alvo de apoio e desvio. Quem nunca foi com a cara de alguém (o que é não ir com a “cara” de alguém afinal?) e se surpreendeu depois, que atire a primeira pedra.

Todos fazemos. É valido, a nível de crescimento pessoal, sempre se estar atento as críticas que depositamos nos outros, visto que aqui não se trata de estudar a mente humana e traçar um diagnóstico com propriedade. Se somos capazes de identificar no outro via senso comum, a palavra resume o processo. Identificar deriva  de identidade. E identidade provém de idêntico. É a partir da realidade externa que as pessoas constituem este noção subjetiva de um “eu” separado dos demais. Ao longo da infância, da educação, das vivências singulares, de como foram significadas as experiências reais ou imaginárias de cada um, que vamos construindo esta idéia (própria) de identidade.

Não é difícil perceber, visto que não nascemos dotados de visão raio X, que o dedo em riste que voltamos ao outro está apontado a nossa própria testa. Já que ninguém esta lendo nossos pensamentos, confessemos na cumplicidade do anonimato (de vocês, eu estou confessando abertamente), quantas vezes não julgamos alguém sem conhecer? Quantas vezes escutamos um lado de uma história, sendo que toda história tem no mínimo três lados, e mesmo assim caímos na ignorância de tomarmos partido-cego? Quantas vezes não caímos na armadilha reducionista de limitar o universo inteiro que é cada ser humano, na definição de um adjetivo?

Duas coisas incomodam. O idêntico e o oposto. O idêntico, por ser aquilo que sou. E o oposto por ser aquilo que gostaria de ser. O que não tem nada a ver com a gente, não incomoda. Mas incômodo é sempre bem vindo. A areia que entra na ostra é um baita incômodo, mas se assim não fosse, não existiram pérolas.

Concordo que as vezes cansamos de nadar em oceanos de ostras vazias. Às vezes somos grãos de areia, dentro destas ostras, e elas não sabem o que fazer com a gente. E uma boa existência sempre vai incomodar. O colega de trabalho que quer te passar a perna, a menina que te inveja, o amigo da onça que quer te ferrar, aquela pessoa que nem te conhece e te crucifica sem o mínimo de propriocepção para discernir o quanto fala dela mesma.

Assim caminha a humanidade, hora sendo ostra, hora areia, pérola ou oceano. Com alguma coisa em comum. O traço humano que nos financia como fragmentos da mesma espécie. Tenho mania de imaginar todas as pessoas quando crianças. É um exercício que aconselho, pois fica mais fácil entender sobre a primitividade humana, além de ser divertido.

Aos poucos, vamos percebendo quem é aquela criança que precisa de atenção porque não teve, qual é a insegura, zombada e excluída na escola, a emburrada num canto, a que não teve o carinho que deveria ter, aquela que não foi respeitada em sua condição de infante e cobrada a ter recursos que ainda não possuía, a que fica procurando um rosto conhecido na apresentação de final de ano e não encontra, a que morde o coleguinha, a que tem medo do escuro, a que só precisa de um colo, uma historinha pra dormir e um beijo de boa noite.

Às vezes penso que o fascínio que temos com crianças, é porque elas nos lembram do tanto que o mundo tratou de nos corromper e o do quanto deixamos que ele o faça. Trocamos sonhos por descrença, pureza por desconfiança, entusiasmo por conformismo, peito aberto por auto-preservação furada, espontaneidade pela norma, fantasia pelas máscaras identitárias.

Abdicamos das nossas perguntas, dos nossos porquês, de ver o mundo como um espaço potencialmente novo a ser descoberto e criamos a falsa idéia de que crescer seria constatar que mundo é essa porcaria aí mesmo. Mas mesmo corrompidas, quebradas ou cheias de cicatrizes, somos todos ainda crianças. Crianças que trocaram sua capacidade de imaginação, suas bailarinas ou super-heróis, por essa fantasia chatinha, sem cor e sem graça de adultos.

Feliz dia das crianças procês!

Cheios. De falta.




“É que ele não me completa”.


A frase saiu de uma amiga portadora de vários atributos. Bonita, inteligente, sensível, romântica, são alguns deles. Após eu ter questionado o porquê do termino de sua mais recente relação – a quarta esse ano, e estamos em outubro – ela me responde com essa afirmação, com uma certeza tão inquestionável que só me restou dizer: “então tá.”


Guardem a frase. Agora levantem a blusa, e olhem para própria barriga (se estiverem num local público, podem apenas imaginar a própria barriga). O que vocês vêem? Salvo se forem o caso daquela moça que fez tantas plásticas que perdeu o seu, todos poderão constatar que ali reside um umbigo. Quem tem cicatriz de piercing infeccionado, pode ter dois “bigos” também. Mas um dia foi um.


Como nós, ligados um no outro, via cordão umbilical, um dia nos fomos complementados por um outro alguém. Então, se você tem umbigo no meio do tronco, já carrega a marca da falta. Lembre disso, cada vez que olhar novamente para o seu. Inerente à condição humana de existência no mundo, é a falta que nos faz permanecer em busca, que por sua vez, nos garante a condição de movimento.


Como nós vamos lidar com isso, com o quê vamos tentar preenchê-la, e qual caminho vamos perseguir, vão  dos valores pessoais de cada pessoa. Uns querem uma bolsa Luis Vuitton, outros uma Ferrari, alguns um marido de extensa conta bancária, um emprego de altíssima remuneração, um corpo perfeito, uma viagem longa pela Europa, o conhecimento, a cura do câncer, o amor, o cargo de presidente da república, cada um no seu redondo. Quem estiver plenamente satisfeito com o que tem, pode fazer a última busca. Escolher o seu caixão, e escrever a próprio punho em sua futura lápide a sentença de morte: “sou pleno”. Basta deitar e esperar, visto que não há mais motivos para viver.


Afinal, é a busca que dá sentido à vida. É o combustível que nos coloca em movimento. E viver é estar em movimento. Agora, esperar que alguém dê conta de preencher essa falta, já é sacanagem. Justificada, porque a gente se atrapalha ali na paixão. Paixão é uma fase em que a percepção da realidade encontra-se tão alterada, que podemos (quase) acreditar que estamos plenos. Que a dada pessoa é o bombril mil e uma identidades que faltava a essa nossa louça suja, que agora sim, finalmente, encontramos o remendo perfeito para esse inexistente cordão umbilical que o vazio na barriga insiste em lembrar que falta.


Se existir de fato um sentimento real (posto que paixão é fase), inevitavelmente, vai chegar o momento de restar o amor. E a falta. O casal pode achar estratégias, decidindo ter filhos, vai saber, dizem que é isso que completa né? Acontece que se ocupam tanto na função de pais que a falta perde parte do peso, não se tem muito tempo para as próprias questões existenciais, e assim vai se burlando esse vazio. Até que os filhos crescem, ou não crescem nunca, desimporta, uma hora a falta volta.


Iniciar uma relação esperando se sentir plenamente completo é mais furada que meia de mendigo. Pra quem estiver apaixonado, isso pode soar absurdo, então aconselho que volte a ler depois que a paixão passar. Já posso ouvir: “E daí, tu sugeres o quê? Se nunca vai acabar também devo ir comprar meu caixão?”. Calminha. A falta é ótima. Não é agradável de ter, mas sem ela, você nem estaria me lendo aqui agora. Inclusive não leria nada, visto que nem teria aprendido a ler. Pra que aprender (o que quer que seja) se não te falta nada?


O ponto deste texto não está em sugerir a alguém cortar os pulsos, mas em ressaltar a importância de se ter metas, tendo consciência que o caminho tem um valor fundamentalmente mais importante do que a chegada. Se quisermos sair de um lugar ao outro, podemos agilizar o pouso entrando num trem-bala. Mas estaremos renunciando à universos inteiros que vivenciaríamos caso viajássemos prestando atenção em cada passo.


Mais uma vez, entramos na dilatação do tempo, sábio Einstein. Perseguir, sim. Olhar para o horizonte, sempre. Mas jamais desmerecer a importância do tempo presente. A falta veio e vai conosco, seja onde estivermos. É importante aprender como usá-la ao próprio favor, e não contra si. E isso inclui assumi-la como condição, sem colocar como dever do outro resolve-la, correndo o risco de dar um tiro no próprio pé. Quando estivermos andando na mesma estrada, ao lado de outros umbigos, será incomparavelmente mais enriquecedor não centralizar o olhar só no próprio.