Onde mora minha (insustentável) saudade



Do latim solidate, que significa “solidão com influência na saúde” , o dicionário define a saudade como a “ lembrança nostálgica e, ao mesmo tempo, suave, de pessoas ou coisas distantes ou extintas, acompanhado do desejo de tornar a vê-las ou possuí-las; nostalgia. Pesar da ausência de alguém que nos é querido.

Bom, né? Mas no dicionário também tem referências a uma planta da família das dipsacáceas e asclepiadáceas, o que não vem ao caso neste texto.

Salvo minha amiga Julia, que tem saudade do gosto da coca-cola de garrafinha de vidro, a grande maioria das pessoas sente saudade daqueles momentos e daquelas pessoas que nos marcaram a vida seja lá como for, ou “ daquela infância querida, que os anos não trazem mais”, como dizia o poeta.

Esta é uma espécie irredutível de saudade que se carrega ao longo da vida, e que bom mesmo, afinal deve ser muito triste andar por ai esvaziado, ou ter vivido tão em branco o ponto de não ter do que sentir saudade.

Embora nostálgica, este tipo de saudade nós não apenas carregamos conosco, mas já se torna parte de quem somos, ou seja, é uma saudade constituinte. Está arraigada e fixada tão densamente, que se torna uma tatuagem (em alma) que a gente não tem mais como tirar fora.
A gente a observa em flashes cruzados quando fecha os olhos, quando se está sozinho, quando se está vivendo um momento difícil que parece que não tem mais fim, e suspira em grito silencioso, trancado no pensamento: “ai, que saudade daquele tempo (pessoa, situação, ...).”

Na verdade este tipo de saudade é uma obra (por vezes de arte, por vezes medíocre, mas sempre uma obra). Funciona como um cinema mudo, onde somos os criadores. E tem a extraordinária capacidade de embaçar as fotos, de colorir os filmes, de restaurar aquele quadro tomado pelo tempo.

Os bastidores, a lente que quebra, a imagem tremida, o erro de script, a atuação vaga, o roteiro ruim, a tinta que escapou do contorno, o final decepcionante... nada disso entra nesta saudade. Ela é uma obra cujos contornos foram adornados de forma tão irretocável, que nada mais nos resta do que cair na melancolia de querer se voltar ao próprio quadro, e dar-lhe vida.

Sim, porque quadros nunca tiveram vida, eles são expressões da própria vida. Um recorte de vida imortalizado. Assim como isso do que tanto sentimos falta, talvez de fato, nunca tenhamos vivido, tal como repintamos em nossa mente. O que não significa que ela não doa, ela dói. E parece ser uma dor de falta, mas só parece.
Dói porque sabemos que nunca teremos de volta aquilo que nem arriscamos pensar que nós nunca tivemos, pelo menos, não da maneira como nos “lembramos” que tivemos. E como esta lá, no passado, e não morre nunca, dói mais ainda, pela incapacidade de consumação.

Mas tem uma outra face da saudade. Uma que não nos constitui, como a saudade nostálgica, mas que talvez seja uma falta, de verdade. Uma saudade insustentável.

Para mim, a saudade mais cortante
Mais inadmissível
É aquela de tudo o que ainda não vivi
Porque eu não vivo de passado
E nem mesmo no futuro, porque quero o hoje
Mas a minha saudade mora lá...
no horizonte

5 comentários:

  1. Fernando (Nando)22 de maio de 2009 21:09

    Mas vai ser sagitariana assim "lá em casa"!
    hahahahahahaha

    Brincadeira hein, muito bom o texto!

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  2. Coisa mais linda, mais cheia de graça essa minha guria! E ela nem sabe que por onde ela passa...o mundo inteirinho ela enche de graça...

    Me vi refletida nessa tua definição de saudade nostalgica... e eu que achei que não sabia pintar.

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  3. Bom texto!
    Venho aqui todo dia conferir!
    Beijao!

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  4. Bah, tem que tomar cuidado com o que se diz pra Manu, pq pode virar texto!!!!

    hahahahahahahahahaha

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  5. Hey! Eu sei onde tem coca-cola de garrafinha de vidro! hahahahahahaha

    E é só você que tem a cura do meu vício, de insistir nessa saudade que eu sinto... de tudo que eu ainda não vi... Já dizia o poeta.
    Muito bom!

    Beijão!

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