Eu e elas....todas de mim!





“Quem me vê assim cantando
Não sabe nada de mim
Dentro de mim mora um anjo
Que tem a boca pintada
Que tem as unhas pintadas
Que tem as asas pintadas
Que passa horas à fio
No espelho do toucador
Dentro de mim mora um anjo
Que me sufoca de amor
Dentro de mim mora um anjo
Montado sobre um cavalo
Que ele sangra de espora
Ele é meu lado de dentro
Eu sou seu lado de fora
Quem me vê assim cantando
Não sabe nada de mim
Dentro de mim mora um anjo
Que arrasta suas medalhas
E que batuca pandeiro
Que me prendeu em seus laços
Mas que é meu prisioneiro”

Composição: Sueli Costa/Cacaso


Quem sou eu?


Sim, estou perguntando. Te arrisca? Até onde eu posso pensar, “eu” é o que não é “tu”, mas para vós eu já serei "tu". E "eu", nem o “eles”, nem o “nós” jamais serão . Nós (primeira pessoa do plural), e nós (emaranhado), tanto faz, quase a mesma coisa, mas ainda assim, não “eu”. Confuso? Pra mim sim. 

Perguntei para várias pessoas. Perguntei para amigos que em quem confio. Perguntei a familiares. Para alguns leitores que eu nunca vi pessoalmente, mas que comigo trocam. Perguntei ainda a pessoas que eu sei que não vão com a minha cara, e outra com quem eu nada tenho em comum. Ou tenho, quem sabe? De qualquer forma, sempre é bom ouvir no mínimo três lados. Vale pra tudo.

Alguns responderam falando de si.“Gosto de ti porque tu....” Gostar ou não de mim era irrelevante, queria saber quem sou, não o que esse quem evoca ou repele. Outros me teceram elogios, e um teve mais coragem para me dizer que me acha muito pretensiosa e parcial. Mesmo assim, referia-se a minha escrita. Não recebi nenhuma ofensa no face to face, uma lástima. Dizer que eu era brilhante ou genial, seria recebido com o mesmo impacto do que nomear-me como dentro (ou abaixo) da média.

Tudo isso ainda estaria na minha relação com o mundo, e não em quem eu sou. Mas nenhuma resposta foi igual. E esta foi a melhor informação que retirei do breve questionamento. Se nenhuma resposta foi igual, e se é impossível se distanciar da questão ao ponto de não falar minimamente de si mesmo (afinal de contas,  “tu – para mim – és...) e se nenhuma resposta encontrou correspondência comum, a única conclusão que me resta é que eu sou uma para cada pessoa. Portanto, tudo que sou para alguém, sou para alguém. Não é quem sou eu.

Alguns sabiamente anteveram, respondendo que era impossível responder. Uma resposta crua, sem aprofundamento, talvez tenha sido o mais perto que um outro tenha chego de um eu – o meu, no caso. Inconstante e em busca”. Foi do Marcello. Ele não  disse artista, atleta, pirada, romântica, disléxica, paranoide, cantora, narcísica, o que consta na tua certidão de nascimento, ou o que dirá o teu diploma.  Nenhuma definição. Ele foi o mais longe de si mesmo para responder, afinal tentou voltar-se a pergunta e abriu.




(…)


-         O que você ama nos outros? Me pergunta meu amigo “Verme”, em relação ao meus outros.
-         Eu amo a possibilidade. Do ser e desfazer-se, do não ser e recriar-se.
-         O brincar com os papéis?
-         O que seria viver no mundo senão brincar com papéis?
-         Nada além do viver no mundo. Quem precisa de face?

(…)



Tudo o que sou, é o que acredito que sou. Tudo que eu posso parecer, ou vir a ser, eu sou a partir do meu corpo, meu eu-pele, e de como ele interage no mundo. Ou ainda da minha consciência, do que ela pensa que estou fazendo, ou do que pensa meu eu.  Angustiante? Sim. Retire a identidade de um homem, e veja como ele se sai.

Quem sou eu?


Jamais poderei escrever. Posso escrever o que não sou. Não sou o que eu mostro ser, nem o que se vê. Não sou aquilo que eu posso pensar. E se não posso pensar, não posso traduzir. E se não posso traduzir, não posso escrever.



Eu sou... Eu-sinto... e eu moro no vento...
...
...
...

6 comentários:

  1. "Ser ou não ser, eis a questão:
    será mais nobre em nosso espírito sofrer pedras e setas
    Com que a Fortuna, enfurecida, nos alveja
    Ou insurgir-nos contra um mar de provações
    E em luta pôr-lhes fim? Morrer.. dormir: não mais.
    Dizer que rematamos com um sono a angústia
    E as mil pelejas naturais-herança do homem:
    Morrer para dormir... é uma consumação
    Que bem merece e desejamos com fervor.
    Dormir... Talvez sonhar: eis onde surge o obstáculo:
    Pois quando livres do tumulto da existência,
    No repouso da morte o sonho que tenhamos
    Devem fazer-nos hesitar: eis a suspeita
    Que impõe tão longa vida aos nossos infortúnios.
    Quem sofreria os relhos e a irrisão do mundo,
    O agravo do opressor, a afronta do orgulhoso,
    Toda a lancinação do mal-prezado amor,
    A insolência oficial, as dilações da lei,
    Os doestos que dos nulos têm de suportar
    O mérito paciente, quem o sofreria,
    Quando alcançasse a mais perfeita quitação
    Com a ponta de um punhal?
    Quem levaria fardos,
    Gemendo e suando sob a vida fatigante,
    Se o receio de alguma coisa após a morte,
    –Essa região desconhecida cujas raias
    Jamais viajante algum atravessou de volta –
    Não nos pusesse a voar para outros, não sabidos?
    O pensamento assim nos acovarda, e assim
    É que se cobre a tez normal da decisão
    Com o tom pálido e enfermo da melancolia;
    E desde que nos prendam tais cogitações,
    Empresas de alto escopo e que bem alto planam
    Desviam-se de rumo e cessam até mesmo
    De se chamar ação."

    Shakespeare (Hamlet, Ato III, Cena I)

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  2. Adoro tuas crises existenciais....

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  3. pobre de quem é o que é.. não fosse o que é nada seria...

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  4. Anônimos, dêem a cara a tapa, afinal se nem mesmo a face é propriedade, nem mesmo o nome é predicado. Me matam de curiosidade.

    Gabi, eu li e reli isso num artigo que continha parte desta citação há umas 3 semanas atrás, muito tri tu teres trazido.

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  5. o anonimato é a carteira de identidade da existência.. ele prescinde da imagem que o nome cria.. não há existência senão no anonimato nem identidade em que o nome seja explicitado... abço!

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  6. Anônimo.

    Tens um argumento indiscutível, embora, como qualquer argumento, há controvérsias. (até este, visto que se o defino como indiscutível e tento apontar controvérsias, entro em contradição).

    Tenho argumentos que batem o teu. Mas estes estariam a comando do meu próprio desejo, e isso é causa pequena. Falaria a partir do risco que corre o gato (lembra, “o gato morreu de curioso”?).

    De qualquer maneira, caro anônimo, és certeiro (a) ao lembrar que a palavra ou nome são apenas substitutos limitados, o significado não reside nos signos das letras. Nada me resta então, senão lhe saldar e lhe convidar a voltar sempre aqui, neste meu humilde
    lar-universo de verborragias.

    Abraço!

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